quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Viver despenteada

Hoje aprendi que é preciso deixar que a vida te despenteie, por isso decidi aproveitar a vida com mais intensidade…
O mundo é louco, definitivamente louco…
O que é gostoso, engorda.
O que é lindo, custa caro.
O sol que ilumina o teu rosto enruga.
E o que é realmente bom dessa vida, despenteia…
- Fazer amor, despenteia.
- Rir às gargalhadas, despenteia.
- Viajar, voar, correr, entrar no mar, despenteia.
- Tirar a roupa, despenteia.
- Beijar a pessoa amada, despenteia.
- Brincar, despenteia.
- Cantar até ficar sem ar, despenteia.
- Dançar até duvidar se foi boa ideia colocar aqueles saltos gigantes essa noite, deixa seu cabelo irreconhecível…
Então, como sempre, cada vez que nos vejamos eu vou estar com o cabelo bagunçado, mas pode ter certeza que estarei passando pelo momento mais feliz da minha vida.
É a lei da vida: sempre vai estar mais despenteada a mulher que decide ir no primeiro carrinho da montanha russa, que aquela que decide não subir. Pode ser que me sinta tentada a ser uma mulher impecável, toda arrumada por dentro e por fora, o aviso de páginas amarelas deste mundo exige boa presença: arrume o cabelo, coloque, tire, compre, corra, emagreça, coma coisas saudáveis, caminhe direito, fique seria… é, talvez deveria seguir as instruções, mas quando vão me dar a ordem de ser feliz? Por acaso não se dão conta que para ficar bonita eu tenho que me sentir bonita… A pessoa mais bonita que posso ser!
O único que realmente importa é que ao me olhar no espelho, veja a mulher que devo ser. Por isso, minha recomendação a todas as mulheres: entregue-se, coma coisas gostosas, beije, abrace, dance, apaixone-se, relaxe, viaje, pule, durma tarde, acorde cedo, corra, voe, cante, arrume-se para ficar linda, arrume-se para ficar confortável, admire a paisagem, aproveite, e acima de tudo: Deixa a vida te despentear!
O pior que pode passar é que, rindo em frente ao espelho, você precise se pentear de novo...
autor desconhecido

Menos ou mais

Menos um ano, alguns sonhos realizados, desejos matados outros alimentados,
pequenos pedaços soltaram-se, sentimentos foram sugados.
Mais um ano, para mudar atitudes e criar ideias, para desejar e renovar,
buscar conteúdos, usufruir dos pensamentos positivos, ficar do lado de quem faz bem.
Dizer não quando significar não. E sim se o quiser assim.
Abandonar pessoas, palavras, sentimentos, fugir, desaparecer, ser fiel ao próprio ser.
Um ano a menos, experiência a mais.
Coisas devem ficar para trás, logo a frente a gente é que faz.
Fica tudo bem quando estamos em paz. Em paz até mesmo com nossos erros.
Não se pode cair no erro de não ousar em nosso desejo. Mesmo que desejar não ser nada, e ser tudo, não ter meta nem estatuto, dormir cansada deste mundo e acordar com vontade de mudar tudo.
Ouse, encante, ria, dance, chore, sinta, seja, esteja, beije, verbalize os sentimentos ou sentidos, antes que os anos a menos sejam maiores que os anos que te restam. Menos ou mais quem decide somos nós.
Esqueça tudo e todos e olhe para dentro de você, sinta o que realmente quer ter e ser, faça por merecer. Quem sabe algo novo possa acontecer, só depende de você, faça do novo ano um embarque para uma nova vida, e viva!!!
Sara Almeida

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Simplicidade

Acho a maior graça. Tomate previne isso,cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere...
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.
Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem!
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde!
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda! Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que nada!
(por Luis Fernando Veríssimo)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Ancorada

Num caminho de espinhos
mas com flores nos pensamentos
palavras cruéis nos ouvidos
mas bela sintonia no coração
problemas diversos
solução? tempo
meu velho conselheiro
o amor tranquilo no seu sono rotineiro
ainda bem que dormes
quando acordares estará descansado
e mais uma vez cuidará de mim
por enquanto te olho e espero
seu carinho sincero
e as sementes para flores reais
meus olhos não fecham
meus pensamentos não param
o coração bate no compasso da certeza
que quando acordares enxergarei a beleza
pesada ou leve,
espero seu despertar
até de manhã, meu talismã

Sara Almeida

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Minhas palavras

E se antes, bem antes, um pedaço de maçã...

Hoje quero a fruta inteira!

(teatro mágico)




Desde pequena sempre gostei das palavras, primeiro foram as palavras ditas, falei muito cedo, e falava tudo e muito, até cantava e dançava. Mas não fazia isso como forma de estar sendo vista e sim porque me libertava. Falo bastante até hoje, as vezes falo tanto que quando paro sinto um alívio e um medo de ter falado demais. Apesar de muito falar também ouço as pessoas, que tem a estranha mania de me confessar segredos impensáveis, e penso porque a mim? Não sei mas tanto gosto de falar como de escutar, então ouço e calo, depois escrevo. Sim porque desde que me lembro sempre achei lindo escrever. E antes de ter idade de ir a escola achava a coisa mais linda do mundo alguém sair por aí a fora com cadernos, livros, lápis, e todos os materiais necessários para aprimorar o conhecimento, alguém que lia e escrevia só poderia ser boa figura, até fingia ler com qualquer papel nas mãos para parecer importante. Então quando comecei a aprender as vogais, vi um mundo abrir-se a minha frente, e assim que conseguia formar frases não parava de ler, tudo em todos os lugares, qualquer letra para mim era magia. Até hoje se leio uma revista que seja não pulo uma única frase, nada escapa aos meus olhos. Leio rápido, devoro, parece até que não estou a prestar atenção, mas estou sim, absorvo com cada sentido o poder da palavra, seja ela escrita ou falada. E guardo tudo na memória, cada coisa que escrevi até hoje lembro-me bem, e nunca me esqueço das coisas que me dizem. Uma coisa engraçada é que ouço melhor com os olhos abertos, e cheiro melhor com os olhos fechados, sou mesmo uma criatura estranha. Ler e escrever são coisas bastante importantes para mim, talvez como comer, sou gulosa na escrita e na comida. Adoro ler e escrever cartas, embora já não faça e fico triste com isso, minha caligrafia é bonita pena ter ficado no passado a escrita manual. Escrevo e-mails gigantescos, como se fossem cartas, as pessoas queridas que estão distantes. Acho o telefone um mal necessário, não me emociona tanto quanto a escrita. Quando li um livro pela primeira vez tinha eu oito anos de idade, uma das minhas irmãs emprestou da biblioteca pública da nossa cidade, tínhamos uma carteirinha de sócia, engraçado como as coisas mudam rápido. Me lembro bem era “O cachorrinho Samba na floresta” (Maria José Dupré), e segui muitas outras aventuras do Samba, talvez minha querida irmã nem se lembre, mas a partir daquele ato ela me apresentou um mundo novo, e contribuiu para que me tornasse mais esclarecida, sim porque ler é conhecer, o conhecimento é vital para formar uma sociedade saudável. Minha irmã é mesmo boa figura (risos), nunca mais deixei de ler, e foi também ela que me “apresentou” Machado de Assis, e foi Dom Casmurro a primeira obra de Machado que li. Dali para frente tudo que posso ler leio, o que não posso fica na lista de espera. Quando sai do primário e passei a ter mais matérias na escola, achava-me um bicho estranho pois gostava igualmente de matemática e literatura, que raio de pessoa se apaixona por números e palavras com a mesma força. Então dedicava me as fórmulas matemáticas que sinto prazer em resolver, e me escondia nas minhas escritas secretas, que foram todas para o lixo antes de qualquer pessoa ler. Sempre escrevi muito, o fato é que só agora decidi que isso é bom para mim, e até gosto de ler o que escrevo, finjo que não sou eu, e acho até bonito. Gostaria mesmo de ter menos afazeres e poder escrever mais, quem sabe daqui uns anos consiga me refugiar num canto qualquer, com um verde bonito e escrever como se fosse uma necessidade fisiológica, porque é! Por enquanto escrevo pela metade, logo serei só palavras, de olhos fechados e dedos velozes. É o que espero.
Sara Almeida



Ser crescente

Todos os dias me dou conta que viver é puro e simplesmente deixar se levar sem grandes expectativas e sem grandes medos.
Porque ontem o futuro era tão assustador, e este futuro é hoje, e afinal de contas estou conseguindo guiar tudo bem a meu ver ou mal aos olhos dos outros, mas vivo de modo saudável e feliz.
Olho para trás e vejo que aquela pessoa que eu era cresceu imenso, e ainda esta tão pequenina, mas não invisível, apenas cheia de espaços a serem preenchidos.
Continuo aquela caçadora de respostas, que por vezes tem mesmo que inventar respostas para si, como qualquer outra pessoa.
Tem ainda um punhado de sonhos dentro de mim. Mas a realidade rasgou me e por vezes a vida parece inútil, e eu muitas vezes pareço fria e desigual.
Dentro da minha cabeça existe um roteiro de vida para todos, mas meus braços são só dois, e minha força feminina é débil para mudar o esquema das coisas. Então a bela solução é cuidar de tudo que eu possa alcançar sem grandes sofrimentos, pois o pouco bem feito vale mais do que o muito no papel.
A política necessária para o equilíbrio ao meu redor será usada, tanto quanto a ciência, que tanto creio. Mas acima de tudo usarei meu instinto humano.
A cada dia vejo pessoas ao meu redor deixarem de ser humanas, e se transformarem em seres decrescentes. Eu não vou perder a força, sou um ser crescente, e apesar das críticas não temo o futuro, que nem sei se existirá.
Cuido do verde, pois não gosto do opaco. Cuido da água, pois detesto ter sede.
Por hoje sou o amor, e quem sabe o amanhã nem conhecerá a dor.
Sara Almeida

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Guardião

Você que sempre me espera
Faça chuva o faça sol
Você esta sempre lá
Como um guarda costa
Minha proteção
Me desmente e não condena
És como uma corda que eu seguro
E sigo atada as minhas mãos
Devo ser um fardo pesado
Mas acho que você gosta de problemas
Quando não tenho mais força
Vem você com a voz serena
Me empurra para frente
Nunca me deixa parar
Quando penso que vou escorregar
E você esta longe demais
Não você vem mesmo a tempo
Eu nasci defeituosa
Como recompensa tenho a ti
Muitas lágrimas minhas nem sequer escorrem
A pensar em ti só posso sorrir
Como explicar o inexplicável?
É melhor não falar nada
Ficamos assim embalados
Por uma das tantas músicas que gostamos
E os outros todos descrentes do amor
Que pena assim nem o cheiro dele podem sentir
E vamos neste nosso compasso invisível a eles
E vital a nós dois, respirarmos o nosso ar.
Sara Almeida

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Cabo da Roca

Segundo Camões: “onde a terra se acaba e o mar começa…”
Mais um lugar belo no mundo, daqueles que não podia morrer sem lá estar.
E lá estive, e renasci, me encontrei me perdi, chorei e sorri.
Para mim um passeio em mim mesma, onde o corpo se acaba e começa o espírito, onde deixa o ser e começa o sentir.
A expressão do que é belo, bem ali a minha frente, um misto de alegria e melancolia.
Dali do alto vi o sol tocar o mar, e ao beijá-lo me cegar com tanto brilho.
O belo contorno arredondado da linha do horizonte, o limite do além.
O mar a acariciar as rochas com suas ondas espumantes e alvas, mas pareciam brincar num vai e vem dançante.
O mar a mudar de cor a cada olhar meu, usando meus azuis favoritos, fiquei enfeitiçada.
Num silêncio profundo ouvi o som do infinito…
Respirei fundo, ali é o fim do mundo. Era como se ouvisse o canto final da flauta doce, pura melodia.
Tarde fria e sol quente.
Muitas raças, muitas línguas, muitas máquinas a registrar as belezas erguidas pelo homem no cimo do paraíso.
Eu perdida com os olhos contemplando a beleza da natureza. Se morresse ali não tinha mal nenhum, já estava feliz o bastante.
Imagens magníficas visíveis apenas aos sentimentos.
Mais parecia o paraíso, se existe um pode ser este de certeza.
Lá onde acaba a terra e começa o mar, o lado mais ocidental da Europa,
ao pé do fim do mundo ou o começo dele, onde fico mais pertinho do Brasil, e nem por isso mais perto dos meus, na verdade me senti mais distante pela saudade…
Longe de tudo e perto de mim, voei com os pés no chão e cabelos ao vento.
Sara Almeida

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mundo Corporativo

Todos os dias, a formiga chegava cedinho ao escritório e pegava duro no trabalho. Era produtiva e feliz.
O gerente marimbondo estranhou a formiga trabalhar sem supervisão.
Se ela era produtiva sem supervisão, seria ainda mais se fosse supervisionada.
E colocou uma barata, que preparava belíssimos relatórios e tinha muita experiência, como supervisora.
A primeira preocupação da barata foi a de padronizar o horário de entrada e saída da formiga. Logo, a barata precisou de uma secretária para ajudar a preparar os relatórios e contratou também uma aranha para organizar os arquivos e controlar as ligações telefônicas.
O marimbondo ficou encantado com os relatórios da barata e pediu também gráficos com indicadores e análise das tendências que eram mostradas em reuniões.
A barata, então, contratou uma mosca, e comprou um computador com impressora colorida. Logo, a formiga produtiva e feliz, começou a se lamentar de toda aquela movimentação de papéis e reuniões!
O marimbondo concluiu que era o momento de criar a função de gestor para a área onde a formiga produtiva e feliz, trabalhava.
O cargo foi dado a uma cigarra, que mandou colocar carpete no seu escritório e comprar uma cadeira especial.
A nova gestora cigarra logo precisou de um computador e de uma assistente (sua assistente na empresa anterior) para ajudá-la a preparar um plano estratégico de melhorias e um controle do orçamento para a área onde trabalhava a formiga, que já não cantarolava mais e cada dia se tornava mais chateada.
A cigarra, então, convenceu o gerente marimbondo, que era preciso fazer um estudo de clima. Mas, o marimbondo, ao rever as cifras, se deu conta de que a unidade na qual a formiga trabalhava já não rendia como antes e contratou a coruja, uma prestigiada consultora, muito famosa, para que fizesse um diagnóstico da situação.
A coruja permaneceu três meses nos escritórios e emitiu um volumoso relatório, com vários volumes que concluía : "há muita gente nesta empresa".
E adivinha quem o marimbondo mandou demitir?
A formiga, claro, porque ela andava muito desmotivada e aborrecida.
Autor desconhecido

Moral da história: Tenho certeza que você está pensando: "já vi esse filme em algum lugar!"

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Não vou me adaptar

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia,
Eu não encho mais a casa de alegria.
Os anos se passaram enquanto eu dormia.
E quem eu queria bem me esquecia.

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar.

Eu não tenho mais a cara que eu tinha,
No espelho essa cara não é minha.
Mas é que quando eu me toquei, achei tão estranho,
A minha barba estava desse tamanho.

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar.

De: Nando Reis

sábado, 5 de dezembro de 2009

Olhos entreabertos

Vejo falsos beijos, escassos desejos, muitos deveres;
Vejo verdades escuras, abraços frouxos, carinhos guardados;
Vejo muito pessimismo, egoísmo, princípios excluídos;
Vejo vergonha, insónia, pouca luta e menos ainda vitória;
Vejo olhos sem brilho, sorrisos sem sons, lábios sem cor;
Vejo uma repetição do que não tem solução;
Vejo que a ordem exata perdeu a certeza;
Vejo novas fórmulas inventadas e as antigas apagadas;
Vejo pouca solução, e muita degradação;
Vejo joelhos no chão e pouca ação;
Vejo o medo do medo de ter medo;
Vejo desilusões chegando mais cedo;
Vejo mãos atadas e forças acabadas;
Vejo pouca vontade e muita maldade;
Vejo as falas fracas, e ouvidos surdos;
Vejo um grande absurdo e sou parte de tudo;
Vejo minha força, minha vontade, minha coragem, minha expectativa, minha parte na força da vida cair em desuso.
Vejo minhas ideias não corrompidas, excluídas, presas num baú da falta de oportunidade, vejo os vestígios de inteligência perderem espaço a falsidade e a esperteza.
Vejo muita realeza, pouca política e muita corrupção.
Vejo a grande confusão, o caos e uma multidão parada, inerte, sussurrando que tem fome.
E por medo de ter mais fome, perdem o próprio nome.
Vejo mais do que meus olhos desejam, e muito menos do que precisam.
E ainda ouço um sussurro débil: melhor ver tudo isso do que ser cego.
Concluo que nasci cega e só agora aprendo a enxergar, ainda assim estou com os olhos entreabertos, pois temo o que meus olhos ainda verão e meus ouvidos escutarão.
Temo mais pela pequena multidão.
Sara Almeida

O sonho da Margarida

Margarida era uma flor cândida e encantadora, vivia desgostosa e exausta no seu conformismo, ora queria bem sua vida ora mal queria fosse o que fosse.
Já estava habituada as manhãs intermináveis que as abelhas vinham lhe importunar com suaves picadelas, já não lhe parecia nada de especial como era quando ainda era pequenina.
Mas crescera e todas as festinhas em preto e amarelo das abelhas não lhe bastava.
Todos que viviam no jardim acostumaram-se a presença da Margarida que desde pequenina despertava muito cedo quando ainda escuro estava, sempre a espera do calor do sol e na certeza do luar ao anoitecer. E assim esbanjava sua graça por todas as estações.
Ela sempre soube sua condição de flor, apesar de ver que o único bálsamo de vida para suas companheiras era as tardes chuvosas de verão, não sentia-se realizada e estava a espera de algo novo e arrebatador.
Observava atentamente todos os seres que por ali passavam e gostava especialmente das Borboletas que lhe entendiam e traziam notícias de um mundo de cores e flores que ela nunca iria ter conhecimento. Só lamentava por elas viverem tão pouco, mas por outro lado chegou a conclusão que as borboletas eram felizes, pois além de infinitamente belas conheciam muito mais coisas em duas semanas do que ela em sua vida toda.
Margarida queria mesmo novidade, sonhadora queria ser amada, queria mais da vida, algo mais que o toque do orvalho matinal, mais do que o brilho ofuscante do sol, mais do que as brincadeiras das estrelas que até empurravam umas as outras fazendo-se estrelas cadentes a verem se a alegravam.
Todas essas coisas a deixavam feliz sim, sabia que vivia num ambiente agradável, não vivia presa a um vaso contando os dias da morte. Tinha calor, frio, chuva e sol, tudo na medida certa. Já estava a parecer-se com humanos que nunca satisfazem-se, lembrou-se da menina Ana que vez ou outra passeava por ali chorosa, a reclamar de uma vida tão bela quanto ela.
Pirilampos que passavam por ali, chateavam-se ao ver a bela flor, os olhos do dia, a murchar lentamente. Sabiam que era beleza singela da Margarida que encantava aquele jardim, e reuniram esforços múltiplos para trazer de volta aquela Margarida de outrora que dormia cedo e ao acordava esbanja felicidades. Os Pirilampos não queriam ver a bela flor sem o sono reparador, e como sabiam que Margarida gostava de conhecer tudo de diferente que existisse por aí, enviaram numa certa tarde um amigo especial que foi uma visita mais que especial para Margarida.
O Beija-flor veio aquele jardim sem saber ao certo que tipo de flor ali havia, mas de longe foi puxado pelo amarelo central da Margarida, mais parecia um pequeno sol, ou seria o reflexo do astro rei? O certo é que quanto mais se aproximava mais bela lhe parecia aquela flor, como pode viver até aquele momento sem ver aquele brilho.
Foi se aproximando lentamente, até encostar o seu longo bico no centro daquele amarelo ouro, ficou ali imóvel no ar, a “beijar” aquela que dali em diante passou ser a mais doce de todas as criaturas para ele.
A Margarida quando viu ao longe aquele pássaro pequeno e belo, com cores mais bonitas ainda que as das borboletas, a voar com graça e delicadeza, como um bailarino a dançar, pensou se seria real este ser indiscutivelmente perfeito. Ficou extasiada quando ele pairou sobre ela como se pedisse autorização para dar-lhe um beijo. Ficou trêmula com o toque do pássaro. E percebeu logo que algo novo passava dentro dela. O Beija-flor sugou todo o néctar da Margarida, nunca havia provado mais doce que isso, e em troca ofereceu a ela a beleza do seu amor e sua companhia.
Assim o sonho da Margarida realizou-se: ela encontrou o amor e é amada. Sentia-se a mais feliz das criaturas.
Todos os habitantes daquele jardim foram testemunhas deste encontro de beleza, era um amor diferente dos outros que ali nasceram.
Os Pirilampos apadrinharam o amor sublime do pássaro pela flor e velam todas as noites o sono da Margarida até o amanhecer e a chegada do Beija-flor.
A Margarida nunca mais ficou só. E o jardim cada vez mais belo com a graça da Margarida e o feitiço do Beija-flor.
Sara Almeida

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O caçador de borboletas

Vladimir recebeu muitas prendas no Natal, entre livros, discos, legos, jogos de computador, mas gostou sobretudo do equipamento para caçar borboletas. O equipamento incluía uma rede, um frasco de vidro, algodão, éter, uma caixa de madeira com o fundo de cortiça, e alfinetes coloridos. O pai explicou-lhe que a caixa servia para guardar as borboletas. Matam-se as borboletas com o éter, espetam-se na cortiça, de asas estacadas, e dessa forma, mesmo mortas, elas duram muito tempo. É assim que fazem os coleccionadores.
Aquilo deixou-o entusiasmado. Ele gostava de insectos mas não sabia que era possível coleccioná-los, como quem colecciona selos, conchas ou postais, talvez até trocar exemplares repetidos com os amigos.
Nessa mesma tarde saiu para caçar borboletas. Foi para o matagal junto ao rio, atrás de casa, um lugar onde se juntavam insectos de todo o tipo.
Já tinha apanhado cinco borboletas que guardara dentro do frasco de vidro, quando ouviu alguém cantar com uma voz de algodão doce – uma voz tão doce e tão macia que ele julgou que sonhava. Espreitou e viu uma linda borboleta, linda como um arco-íris, mas ainda mais colorida e luminosa.
Sentiu o que deve sentir em momentos assim todo o caçador: sentiu que o ar lhe faltava, sentiu que as mãos lhe tremiam, sentiu uma espécie de alegria muito grande. Lançou a rede e viu a borboleta soltar-se num voo curto e depois debater-se, já presa, nas malhas de nylon. Passou a para o frasco e ficou um longo momento a olhar para ela.
— Agora és minha – disse-lhe.
— Toda a tua beleza me pertence.
A borboleta agitou as asas muito levemente e ele ouviu a mesma voz que há instantes o encantara:
— Isso não é possível – era a borboleta que falava.
— Sabes como surgiram as borboletas? Foi há muito, muito tempo, na Índia. Vivia ali um homem sábio e bom, chamado Buda…
Vladimir esfregou os olhos:
— Meu Deus! Estou a sonhar?
A borboleta riu-se:
— Isso não tem importância. Ouve a minha história. Buda, o tal homem sábio e bom, achou que faltava alegria ao ar. Então colheu uma mão cheia de flores e lançou-as ao vento e disse: “Voem!” E foi assim que surgiram as primeiras borboletas. A beleza das borboletas é para ser vista no ar, entendes? É uma beleza para ser voada.
— Não! – disse Vladimir abanando a cabeça. — Eu sou um caçador de borboletas. As borboletas nascem, voam e morrem e se não forem coleccionadores como eu, desaparecem para sempre.
A borboleta riu-se de novo (um riso calmo, como um regato correndo, não era um riso de troça):
— Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto podes coleccionar estrelas. Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na noite. É ali o lugar dela.
Vladimir começava a achar que ela tinha razão.
— Se eu te libertar agora – perguntou – tu serás minha?
A borboleta fechou e abriu as asas iluminando o frasco com uma luz de todas as cores.
— Já sou tua – disse – e tu já és meu. Sabes? Eu colecciono caçadores de borboletas.
Vladimir regressou a casa alegre como um pássaro. O pai quis saber se ele tinha feito uma boa caçada. O menino mostrou-lhe com orgulho o frasco vazio:
— Muito boa – disse.
— Estás a ver? Deixei fugir a borboleta mais bela do mundo.

De José Eduardo Agualusa

domingo, 29 de novembro de 2009

Tem gente...

Tem gente que gosta da gente, gosta mas a gente não sente.
Tem gente que fala que gosta da gente, mas nos faz sentir doente.
Tem gente que ama tanto a gente, que basta nos ver sorridentes.
Tem gente que por precisar da gente, se faz clemente.
Tem gente que não gosta da gente, mesmo assim convive com a gente.
Tem gente que não gosta da gente, nem nos quer ver a frente.
Tem gente que convive com a gente nos manipula e mente.
Tem gente mais bonito que a gente, também mais indecente.
Tem gente mais feia que a gente, mas com beleza simplesmente.
Tem gente que é diferente da gente, que nos respeita completamente.
Tem gente que sente como a gente, porque é gente como a gente.
Tem gente que se engana com a gente, mas que também engana a gente.
Tem gente diferente, que parece não sentir o que é ser gente.
Tem gente que é mais que gente, as vezes até inocente.
Tem gente tão deprimente, até um animal é mais comovente.
Tem gente que nunca sonha, nem nunca luta, fica parada ou demente.
Tem gente fria e gente quente, fala azeda ou docemente, felizes ou doentes.
Tem gente que quer a vida da gente, mas não trabalha ardentemente.
Tem gente como a gente, que vive a vida com a gente, que sente a dor da gente.
Tem gente imperfeita como a gente, que apesar da dura luta sempre vence.
Tem gentes e gentes, depende do que se sente.
Sara Almeida

O poeta é um fingidor

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

De Fernando Pessoa

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Orquestra de brilho

Todos os anos luzes de Natal chegam de mansinho, feito vaga-lumes a piscar numa orquestra de brilho silenciosamente bela. Novos sentimentos nascem, mas as velhas lembranças suavemente renascem…
Distante deste brilho, rodeado pelo verde da mata, pelos sons da natureza vivia um menino que via este brilho ao longe quase apagado, mas sabia que existiam nas cidades punhados de estrelas que poderiam ser tocadas com as mãos. Que a cada novo Dezembro elas surgiam e embelezavam a vida dos habitantes que deviam ser felizes com este brilho tão lindo que ele podia ver dali daquele cantinho do mundo.
Do cantinho de sua cama, Garibaldi olhava pela janela e imaginava que as luzes do Natal deviam ser tão lindas e tão brilhantes quanto as luzes das estrelas que iluminavam seus pensamentos o ano todo. E se forem tão mágicas como a Lua, assim como dizia o senhor que trazia as cartas, aí terá valido a pena esperar até ser grande e colocar suas próprias estrelas brilhantes na casa que terá na cidade.
Segundo o senhor que entregava cartas a cidade tem coisas de todos os tamanhos, formas e cores, e assim as estrelas que os homens da cidade fazem para o Natal devem ser coloridas, por isso ainda mais bonitas do que as do espaço. O menino sempre pensou que faltavam cores nas estrelas.
O menino adorava o espaço, olhava as estrelas todas as noites e dava-lhes nomes bonitos como os nomes das moçoilas que os irmãos mais velhos enamoravam. Adorava tudo que brilhasse, ali naquele pedaço de terra onde vivia com sua família Garibaldi não tinha mesmo nada mais que brilhasse, pois não tinha energia elétrica e tinha que se contentar com a fraca e escassa luz do velho lampião de seu finado pai.
Todos os anos Garibaldi esperava ansiosamente o Natal, ainda que não entendesse o porque, achava tudo que lhe contavam desta data lindo e brilhante. Apesar da desaprovação de todos, o menino montava sua árvore com os galhos secos, que ele mesmo apanhava, e atava penduricalhos diversos. Sempre existiu o Natal para ele, na escuridão da noite os pensamentos brilhavam.
O menino queria crescer logo, mudar-se para a cidade de luzes, esperar o Natal como sempre sonhara. Quanto mais escutava as histórias da cidade ainda mais queria aventurar-se. Sentia-se sozinho ali no escuro da floresta, ainda que rodeado de entes queridos, e não importava de ficar só na cidade rodeado de luzes que ele próprio daria o brilho.
Garibaldi nasceu do acaso, vivia com poucos recursos, pouco carinho, e educação quase não lhe davam. O pouco que aprendia era sempre com o senhor que trazia as cartas. Mas o menino tinha um brilho próprio, um desejo de ser alguém, uma beleza singela, uma força singular.
Apesar de todos os desafios encontrados Garibaldi nunca deixou apagar em seu coração a coragem de desejar. Fez esforços extraordinários para realizar seu primeiro desejo, o de morar numa cidade que tivesse luzes. Cada vez que nasce Dezembro renasce em Garibaldi aquele menino sonhador que nunca o deixa esquecer do cantinho de onde ele veio, mas acima de tudo sempre o faz lembrar de que pode ir a muitos outros cantos desde que acredite em si.
Garibaldi cresceu só, aprendeu só, tornou-se um presente para si próprio.
O Natal escuro daquele menino, hoje é colorido e brilhante, tem o brilho de todas as luzes que ele é capaz de pintar. E principalmente as estrelas e a Lua ainda iluminam os caminhos deste menino que tornou-se homem, mas ainda guarda a magia de criança. Tem agora ao seu lado Beta, a estrela maior de sua vida. Há pessoas que não se apagam.
Se cada luz de Natal correspondesse a um Garibaldi, o planeta seria ainda mais brilhante e feliz. E o Natal teria um significado realmente puro.
Sara Almeida

Lado a lado

Quantos lados você tem?
O lado do bem e o do mal também.
O lado que magoa e o que quer bem.
O lado seu e o que lhe fica bem.
Tantos lados você tem!
Tem o lado belo e aquele outro que não quero.
O lado de menino e outro de animal faminto.
O lado suave e aquele rude.
Aquele frio e estúpido, contraposto com o carente.
O lado do dia, e tem dias.
O lado da noite, que acalma até a fala.
Tem assim estes lados:
De presente a desagrado.
E quanto mais encontro os segredos dos seus lados
Mais me agarro ao seu abraço.
O lado oposto ao seu cansaço.
O lado que te guia os passos.
E além dos lados que você tem:
Tornou-se um dos meus lados também.
Sou agora mais um lado que você tem.
Sara Almeida

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Coisas desenfreadas

Sempre escrevo coisas desenfreadamente, coisas pequenas do meu quotidiano e coisas grandes e profundas do meu coração, embora escrever seja uma das melhores coisas para mim tudo que escrevo passado algum tempo parece ridículo, ou é como se alguém mais inteligente e criativo já tivesse escrito a respeito de tudo e já não me resta o que dizer.
Ainda assim continuo a pensar que escrever é mais que um prazer, a mim parece mais uma devoção. Nos momentos mais inoportunos vem em minha mente as melhores frases, as palavras mais significativas, o elogio ou crítica com mais astúcia que já pude dizer, escrever ou se quer pensar quando necessário.
Na calada da noite quando todos estão a dormir e eu tenho mesmo que descansar, pois no outro dia tenho sempre uma longa jornada, aí vem aquela voz interior a me dar sentenças a respeito de tudo que já vivi, lembrando-me de coisas já adormecidas.
Quando estou atarefada com qualquer situação da qual não posso me ausentar, aí vem ela com a deixa perfeita para a introdução daquele livro que um dia quando menina pensei que talvez num futuro promissor pudesse escrever.
Tentei em muitas ocasiões apenas afastar esta voz, enganá-la dizendo que assim que tiver em casa, ou num sábado que não farei nada importante, quem sabe quando comprar uma mesa e cadeira confortáveis poderei então estar horas a fio escrevendo todos os assuntos que tenho aqui guardados.
Porem estando decidida a começar colocar todos os sentimentos para fora descubro que a voz ainda cá está, por vezes inoportuna que quer dividir as belas coisas da vida em qualquer momento e lugares, ingénua não sabe que para isso terá que detalhar os subterfúgios. Já outras vezes ela é a que não me deixa ir a lado algum, a que deixa tudo para quando comprar isto, quando ter aquilo, é aquela que confunde o medo com racionalidade, e é na verdade uma falta de fé que joga tudo fora antes mesmo de tentar arrumar.
Vou tentar usar as melhores lembranças, cada uma delas, para fazer um relato de mim e dos meus. Por enquanto deixo os dedos deslizarem delicadamente, e na mente a voz da minha essência ditar palavras, e conto o que ouço aqui dentro sem grandes expectativas. Escrevo para me sentir viva. E vai assim nascendo e renascendo coisas, vou observando tudo na intensidade da respiração, e assim nasce uma nova história. Calo-me até a próxima história ganhar vida, e a vida ganhar uma nova história.
Sara Almeida

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Clarabela

Clarabela era uma menina matreira, com uma mente ativa e fértil, sonhava com o dia em que fugiria do quintal de sua mãe para conhecer coisas do mundo, como as que a professora lhe contava nas histórias lidas na escola.
Queria navegar para além das ruas que caminhava todos os dias, ver o verde em outros tons, ouvir os pássaros de outras paisagens, sentir cheiros diferentes daqueles que já faziam parte de si.
Certo dia ouviu na rádio uma notícia sobre o Egipto, ficou completamente fascinada, e decidiu naquele mesmo momento que ainda iria visitar as Pirâmides de Gizé, ainda que lhe custasse muito, trabalharia o suficiente para esta viagem.
A menina passou a se deliciar imaginando que quando chegasse a este lugar de nome tão engraçado, subiria as tais pirâmides e lá do cimo olharia o mundo todo, sentia-se até tonta antes mesmo de lá estar.
Mal sabia o quão longe ficavam as pirâmides, e quando sua mãe lhe contou achou que era mais uma mania da mãe de lhe afastar das diversões.
Perguntou a professora se do alto das pirâmides seria possível ver a escola, a professora admiradora das invenções de Clarabela não teve coragem de dizer que não. A menina então concluiu que o caminho para as pirâmides devia começar por aquela rua por trás da sua casa, pois a mãe sempre lhe proibia de lá ir, e de certeza era por medo de a perder de uma vez por todas. Sim porque Clarabela teria coragem de ir muito além de sua cidade para descobrir todas as coisas bonitas do mundo.
Num fim de tarde de verão saiu para um passeio com o avô, que era uma criatura muito querida e o único adulto inteligente que ela conhecia, além da professora é claro. A menina estava radiante, pois com o avô aprendia coisas indispensáveis, só não percebia porque sua mãe nunca aprendeu grandes coisas, mas ficava calada e ouvia.
O avô de Clarabela, explicou-lhe que o Egipto ficava muito distante, depois do mar, pessoas do mundo todo iam visitar as pirâmides, falou sobre a cultura, e as antigas dinastias do Egipto. O que deixou a menina ainda mais interessada, e com pena da professora que afinal nem sabia tanto sobre as coisas do mundo.
Clarabela ficou muito feliz foi por finalmente perceber que sua mãe tinha razão em muitas coisas e que não a queria em perigo, o único problema que ainda a atormentava é que a mãe ia ficar para sempre naquele quintal e ela queria ir mais além, e pelos vistos teria de ir sozinha.
O Egipto continuou nos planos, e outros mais surgiram. Com a ajuda do avô a menina conheceu histórias do velho continente: suas guerras, descobertas, construções e filosofias. Clarabela queria conhecer tudo e saber as outras línguas, e sentiu que mesmo que não fosse ao Egipto, Itália, França, Patagónia, e todos os outros lugares com nomes tão lindos, ainda assim poderia sempre viajar nas histórias, perder-se nos sonhos ao ouvir palavras lindas de outro habitante de um quanto qualquer do mundo.
Se o avô que nunca saiu daquela pequena cidade era tão sábio, é porque ela também poderia ser, como o avô disse: “o conhecimento não tem fronteiras.”
A pequena crescia feliz e astuta, com um mundo todo a sua frente, cheia de desejos, sonhos e planos dentro do coraçãozinho inocente.
Clarabela, era clara e bela, com cabelos soltos castanhos dourados, olhos cor de mel, curiosos e profundos. Não sei dizer onde foi parar aquela menina, que bela mulher tornou-se, nem em quantos mares navegou.
Vez ou outra invade meus pensamentos com seu ar de boneca e histórias de mundos novos repletos de coisas bonitas.
Clarabela era daquelas pessoas que acrescenta ao mundo uma pitada de magia.
A última vez que a vi estava apaixonada por balonismo. Se calhar voa de uma cidadela a outra enfeitiçando a todos com suas fantasias de menina. Quem sabe até sobrevoou as pirâmides com seu próprio faraó a bordo.
Sara Almeida

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Arte repetida

O que seria da vida sem a melodia de uma boa música a fazer bailar nosso corpo ainda que completamente imóvel;
O que seria da vida sem um filme que a história seja tão bela que nos transportemos a ela como personagens principais;
O que seria da minha vida sem o trocar de nossas palavras…
O que seria de mim sem ler as palavras tuas e sabê-las minhas ainda que meu sentimento seja completamente diferente do seu;
O que seria do mundo sem a arte para tapar os buracos abertos pela estupidez humana…
A arte pode ser ternura pura de uma alma impura!
Qualquer forma de arte tem o poder de traduzir imensos sentimentos numa simplicidade única;
Escrever pode ser arte para acalmar meus pensamentos aflitos.
Música é arte para estabilizar minha desorientação.
Arte é tudo que não é belo mas tem a forma que a beleza deseja ver;
Arte é singular.
Arte, para mim, é aquilo que faz chorar feliz meu coração.
Viver pode ser uma arte.
Basta ver com os olhos de beleza tudo que esta por trás da tristeza;
Sou eu a própria arte de artistas amadores:
Nunca fui planejada;
Outras de mim tentaram vir...
Fui esculpida num lapso de desejo,
Emoldurada com amor imaturo e conveniente.
E saí arte do que a beleza desejou ver.
E desde que me vi arte inacabada de seres utópicos,
Me entreguei metade a realidade, metade a fantasia da essência que me foi dada.
Agora sou uma música sem arranjo.
Um filme sem roteiro.
Um livro sem título.
Uma história repetida cada vez que a palavra é escrita.
Sou como tu: mais uma, menos uma…
Vim de milhares, e de milhares faço parte.
Em busca da minha maneira de fazer arte.
Sara Almeida

domingo, 15 de novembro de 2009

Espaço vazio

Ando perdida em meus pensamentos
sufocada por ideias impensáveis
sofrendo de uma mal sem cura
o mal de mim mesma
sem sentido para vida
tem em mim um buraco gigante
astro nem estrela será capaz de preencher
é um vazio comum a qualquer humano
apenas eu o admito
apenas eu faço perguntas
apenas eu sei que as perguntas não tem repostas
qualquer tentativa de entendimento seria um falhanço
sou eu por mim e contra mim
tenho muitas coisas
mas o ter é pouco
o saber nunca é suficiente
minha mente esta a cada dia mais ativa
e não tem nada a ver com distúrbios psíquicos ou falta de amor próprio
com tristeza ou confusões sociais
tem a ver com a realidade
com a certeza de que o nada existe
e meu tudo é muito profundo
quanto mais penso menos sinto
porque ter este vazio é o mesmo que não sentir
o ar esta a entrar e sair mecânicamente de mim
e o frio que congela meu corpo é menor do que aquele que dominou minha alma
minha alma que é a essência desconhecida
é a força que luta para dominar-me
enxergo através de um clarão um buraco negro e profundo
não existe um mundo
isso tudo parece mais uma invenção qualquer de um ser que nunca foi nada
como uma onda de fumaça que pode ter forma de tudo e na verdade não ser nada
sou um pensamento perdido
um desejo reprimido
um olhar cego
um beijo seco
um toque amortecido no ar
sou um não ser e viver
um estar e não fazer
sou a cada dia menos do que fui
e a cada segundo mais do que desejei
e não há remédio, não há esperança e nem fé
nada pode parar o turbilhão de porquês que flutuam em mim
sou assim um começo sem fim
perdida dentro de mim
Sara Almeida

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Essência Concreta

Despreocupada, flexível, inebriada…
Talvez até embriagada de um contentamento tolo
É assim que sigo, quer queira quer não
Terei que partir sempre de algum lugar
E partirei em direção a outro lugar qualquer
Entre escolher a opção e aceitar a imposição
Obriguei-me a escolher a opção imposta
Por mais livre pareço ser
Sou na verdade brutalmente aprisionada
Num sistema de fatos, atitudes e situações
Não agrada-me em nada ver e fingir não enxergar
Sentir e me camuflar
Perceber meus pensamentos gritantes e calar
Mas o que me agrada é pouco importante
Sou apenas um grão de areia
Uma gota do oceano
Uma partícula não condensada
Sou tão pequena quanto isso
Me refugio nas palavras obscuras e metafóricas
Porque se dizer tudo aquilo que ecoa na massa cinzenta pensante
Talvez transgrida leis e decretos
Tratados e regulamentos
Que na realidade não são respeitados
Por aqueles que os infundiram
Tenho que seguir sempre
E juntar-me a uma massa (es)calada, (des)acomodada, (in)conformada
E ver tudo passar como um filme claro e colorido
E ser um espectador cinzento
Pois se for preto ou branco, oito ou oitenta
Serei taxada como rebelde
Então por ora fico domesticada
Até que o silêncio das minhas palavras seja maior
Que a minha embriaguez tola
Quem sabe assim serei a própria essência
E de abstrata a concreta eu atinja a minha meta
Ainda que pequena como um grão
Ou sensível como uma gota
Mas fundamental como uma partícula.
Sara Almeida

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Da chegada do amor

Sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.
Sempre quis um amor que elaborasse
Que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo
no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor
que coubesse no que me disse.
Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo
BOM DIA!
morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro
coisa da mesma embocadura
sabor da mesma golada.
Sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.
Sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.
Sempre quis um amor
que não se chateasse
diante das diferenças.

Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar
o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.

Contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério;
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.
Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.
Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.
Sem senãos.
Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.
Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.
Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.

Sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.
Sempre quis um amor não omisso
e que sua estórias me contasse.
Ah, eu sempre quis um amor que amasse.

(por Elisa Lucinda, do livro "Euteamo e suas estreias")

Vestida de Brisa


Foi-se para mais uma tarde feliz.
Com um desconhecido muito conhecido.
Vestiu-se de si mesma.
Despiu-se daquela que a ocupa dias a fio.
Vi-a passar. Vi-a desaparecer.
Caminhou ligeiramente, até meus olhos não a verem.
Foi-se velozmente. Nem meus pensamentos a acompanharam.
Por umas horas será da maneira que se vê realizada.
Por umas horas será intensamente completa. E distante.
Será de uma maneira como deseja ser o tempo todo.
De uma maneira que eu temo.
Temo que ela se perca de sim mesma.
E não seja nem esta que me choca, nem aquela que me alegra.
Porque no fundo ela é mais que qualquer uma dessas que se mostra.
No fundo dela tem coisas belas. Tudo muito bem escondido.
Como surpresa guardada em caixinha colorida.
Mais parece uma menina perdida nas ilusões da vida.
Envolta nas preocupações e na eterna procura de respostas.
Foi-se em busca da paixão. Com medo de acabar na solidão.
Antes de acabar o dia vi-a voltar. Talvez mais feliz, e ainda sozinha.
Sara Almeida

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Aroma do amar

Esta noite acordei perdida, como um barco em alto mar.
Sozinha e contraída na minha vida de sentir. É assim que fico sem você aqui.
Sim existem duas vidas, a vida que levo contigo e a outra de sentir quando não esta comigo.
O barco voltará ao porto e você para o meu corpo. Mesmo assim todo velejar solitário, e por vezes necessário, trás dor.
Se consigo viver assim sempre? Consigo, mas é sobreviver despedaçada, opaca e trêmula.
Como o barco no balanço do mar. E num mar bravo e ameaçador.
Nasci sem ti, mas foi nos seus abraços que me encontrei completa.
Porque de tudo que vivi, foi só a ti que absorvi, da minha pessoa resta a mistura daquela que você descobriu com esta que evoluiu.
Seria menos dolorido navegar solitária, sentir a maresia, se não conhecesse seu cheiro.
O tempo que nos separa é pouco. Mas insisto em decorar seu rosto, olho a foto na cabeceira. Você sorri para mim, como se eu fosse a mais bela.
Com você posso ser, posso ter, posso querer, posso simplesmente desaparecer.
Você sempre me busca, me encontra e me acompanha na minha ciranda.
Eu consigo sentir você, sinto que quanto mais o mar balança o barco mais perto estou dos seus braços.
Quando o mar acalmar, o barco ancorar, você vem me amar.
Vou inalar todo o seu cheiro, cercar todo seu corpo, vou te prender de novo até a próximo navegar.
Por que amar é isso, inspirar e expirar o outro, de dentro para fora: calmamente, livremente, docemente...
De outro modo não é amor.
Sara Almeida

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Experiência

Já fiz cócegas à minha irmã só para que deixasse de chorar.
Já me queimei a brincar com uma vela.
Já fiz um balão com pastilhas que me colou a face toda.
Já falei com o espelho.
Já fingi ser bruxo.
Já quis ser astronauta, violinista, mago, caçador e trapezista.
Já me escondi atrás da cortina e deixei esquecidos os pés de fora.
Já estive sob o chuveiro até fazer chichi.
Já roubei um beijo, confundi os sentimentos, tomei um caminho errado e ainda sigo caminhando pelo desconhecido.
Já raspei o fundo da panela onde se cozinhou o creme.
Já me cortei ao barbear-me muito apressado e chorei ao escutar determinada música em público.
Já tentei esquecer algumas pessoas e descobri que são as mais difíceis de esquecer.
Já subi escondido até o terraço para agarrar estrelas.
Já subi a uma árvore para roubar fruta.
Já caí por uma escada.
Já fiz juramentos eternos, escrevi no muro da escola e chorei sozinho no quarto por algo que me aconteceu.
Já fugi da minha casa para sempre e voltei no instante seguinte.
Já corri para não deixar alguém chorar.
Já fiquei só no meio de mil pessoas sentindo falta de uma única.
Já vi o pôr-do-sol mudar do rosado ao alaranjado.
Já mergulhei na piscina e não quis sair mais.
Já tomei Whisky até sentir meus lábios dormentes.
Já olhei a cidade de cima e nem mesmo assim encontrei o meu lugar.
Já senti medo da escuridão.
Já tremi de nervos.
Já quase morri de amor e renasci de novo para ver o sorriso de alguém especial.
Já acordei no meio da noite e senti medo de me levantar.
Já apostei a correr descalço pela da rua, gritei de felicidade, roubei rosas num enorme jardim.
Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas era um "para sempre" pela metade.
Já me deitei na relva até de madrugada e vi o sol substituir a lua.
Já chorei por ver amigos partir e depois descobri que chegaram outros novos e que na vida é um ir e vir permanente.
Foram tantas as coisas que eu fiz, tantos os momentos fotografados pela lente da emoção e guardados neste baú chamado coração.
Agora, um questionário pergunta-me, grita-me desde o papel:
" - Qual é a sua experiência?"
Essa pergunta fez um eco no meu cérebro.
"Experiência...Experiência..."
Será que cultivar sorrisos é experiência?
Agora agradar-me-ia perguntar a quem redigiu o questionário: "
Experiência?! Quem a tem, se a cada momento tudo se renova???"

PS: Recebi o texto sem identificação do autor, não poderia deixar de postar. Seja quem for o autor tem uma linda experiência de vida.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Completamente Inacabada

Impar
Inquieta
Imprecisa
Incógnita
Imprópria
Impaciente
Incorrigível
Inflamável
Imprevisível
Impertinente
Inconstante
Intempestiva
Incansável
Impossível
Intensa
Implicante
Impulsiva
Incisiva
Infrene
Indisciplinada
Insubstituível
Instintiva...

I M P E R F E I T A!!!

Sei que sou imperfeita...Mas é minha imperfeição que dá o devido sabor a quem me ama!!!

Alegre Despertar

A diferença entre uns e outros está mesmo na cor.
Não na cor da pele e sim na cor do desejar.
No acordar, é a-cor-dar, não no levantar.
Acordar todos os dias para pincelar, cada milésimo de segundo vivido.
Recebi um texto de um grande amigo falando que a-cor-dar ,
é puro e simplesmente colocar o coração em tudo que se faz.
E ainda fazer mais, descobrir que despertar é como desapertar,
desprender e relaxar, seguir leve e solto.
Então só colocar o coração não basta, e desapertar também não, se este for sem cor.
Tem que ser um coração com cor e dispor.
Cada um de nós tem um caminho a seguir, a diferença é que uns seguem um caminho escolhido e desejado.
Outros seguem um caminho pré-determinado e sem nenhuma força de vontade.
Não significa que aqueles felizes no caminho escolhido não possam mudar, é óbvio que podem. E os que não estão contentes não só podem como devem.
Se vivemos uma só vez, claro que há quem pense que não, enquanto não temos prova disso devemos viver intensamente.
Viver intensamente a dar cor, e desapertar dos problemas não significa não tê-los ou fugir deles. Temos mais é que ser intensos e realistas, chorar se o choro brotar, rir se o riso afrouxar.
Ser feliz ou ser triste não existe. Existe o estar feliz ou estar triste.
Os mais importantes nutrientes de uma planta são captados pela raiz. A raiz é que faz com que a planta amadureça, claro que os fatores externos acrescentam, mas sem a raiz não acontece desenvolvimento.
Nós todos temos raízes, muitas vezes não absorvemos os nutrientes que elas nos trazem, desperdiçamos, por que não sabemos despertar e acordar. O sol brilha nos chamando quase todos os dias. E quando o nevoeiro ou a chuva vem, não quer dizer que o sol foi embora, é aí que estamos aprendendo e quando sol vir poderemos crescer com mais sabedoria “nutriente”.
Acordar para as pequenas coisas e despertar para grandes pessoas aí está o segredo.
Não temos que ignorar as coisas ruins, ou as pessoas não boas, apenas devemos superar e ultrapassar. Acordando e Despertando a cada dia, num sorriso, numa lágrima, num desabafo, num abraço. Nos superar, e fazer tudo aquilo que queremos e que nos faça bem, e que até agora tivemos medo ou vergonha.
Porque daqui a pouco pode não existir, daqui um tempo podemos não conseguir.
Seja sozinho ou acompanhado tem caminhos para todos os lados.
A realidade está acesa todos os dias bem cedo e caminha seja no claro ou no escuro.
Vamos com ela atear o lume, porque depois pode ser tarde para despertar, e hoje não é tarde para recomeçar.
Sara Almeida

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Para lá e para cá

Dois países Uma língua
Dois falar Um sentir
Uma palavra Dois sentidos
Um sentido Dois agir
Eu balbucio sua fala
Tu apontas minhas falhas
Eu escrevo uma linha
Em seguida tu alinhas
Tu agrafas essa folha
Eu grampeio numa boa
A rapariga aqui trás flores
Noutro lado sente amores
Eu entendo sua língua
Tu percebes minha rima
Numa amizade tão querida
Tu és linda bailarina
Por cá apaixona-te
Todos os dias
Lá está apaixonada
O tempo todo
Num adorável mundo novo
As palavras se misturam
A língua que é só uma
Vira duas melodias
Uma ríspida e seca
Outra doce e arteira
Com todas as diferenças
Vence a convivência
Num mundo de tantas crenças
Mistura se até a descrença
As raças se concentram
E as línguas apimentam
Nossa cultura vira uma
Nossa alegria divide em duas
Aqui vem primeiro a Lua
Lá o sol ainda aquece a rua
Quero voltar para minha casa
E tu queres fugir da sua
Quando a tristeza aqui chegar
Saiba que lá também é seu lugar
Podemos sempre recomeçar
Seja a cantar ou dançar
Mesmo com um mar a separar
Eu serei sempre seu par
Vamos sorrir a bailar
Podem não saber por cá
Mas é certeza por lá
Que Bailarina não pode chorar.
Sara Almeida

domingo, 1 de novembro de 2009

Singularidades

Não sofremos tanto por esperar muito de uma pessoa e ela não corresponder a nossa expectativa. Sofremos muito mais porque não poderemos voltar a esperar algo dessa pessoa do que pelo fato dela não nos ter satisfeito.
Sofremos por nós, por termos errado em relação a algo.
Penso que as pessoas são todas diferentes e únicas, mas temos todos sentimentos claros e objetivos, não são os sentimentos que atrapalham as coisas e sim a quantidade, intensidade, e forma de usá-los.
Não concordo que todos tenham valores e conceitos guardados, há por aí montes de pessoas sem nada para oferecer, que nem sabem o que significa isso.
E dizem que a verdade é relativa, e não é, não existe meio-termo entre verdades e mentiras, ou é ou não.
Em certas questões não acredito em dúvidas, todos nós sabemos bem o que é certo ou errado, se não decidimos é por medo ou covardia, por desejo próprio e nada mais.
Como seres irracionais e imperfeitos podemos até inventar os nossos porquês, porém no fundo de nós está a verdadeira resposta. Claro que as ações dos outros nos impele a tomar atitudes, ainda assim existe a boa e a má atitude em todos os casos.
Todas as minhas ações na vida, seja por que razão julgo ter sido, são únicas e exclusivas opções minhas, mesmo que outros tenham interferido de alguma maneira eu tive que permitir, não foi o universo, nem força superior que fez as coisas como são.
Li que se alguém te trair uma vez pode a culpa se atribuir a ele, mas se alguém te trair duas vezes a culpa é tua, e é mesmo. Nenhum de nós damos tudo o que podemos dar, damos o que achamos suficiente, mas tem sempre mais dentro de nós, até para nós mesmos. Se todos oferecessem o que tem para dar, os bons seriam melhores, mas os maus seriam piores.
O que venho a concluir que poderia ser ao contrário: se os maus dessem menos maldades poderiam ser melhores e se os bons dessem menos bondade viriam a ser menos bons? ! Cada qual tem suas expectativas e desejos na vida, o que muda é que uns usam o que tem de bom em si para alcançá-las e outros desviam-se ou derrubam quem está à frente ou ao lado até conseguir.
Não me parece errado as pessoas sonharem em terem coisas materiais, e também não é errado as pessoas dizerem não a quem lhes pedem ajuda, todos temos direitos a ter coisas e não dividi-las, porque na verdade todos deveriam ter oportunidades sem que precisassem de ninguém a não ser os seus próprios esforços.
O erro é tentarem ter as coisas ludibriando e mentindo aos outros.
Os piores não são aquele que declaram-se nossos inimigos, são piores aqueles fantasiam-se de nossos amigos.
Bom seria nos assumirmos logo como somos, o que não gostamos, o que não queremos, e é claro que não é fácil sermos assim transparentes.
Somos seres indescritíveis, por bons que sejamos existe uma parte obscura que nos permite errar, erramos demais.
Viver pode ser perigoso. E o pior perigo de todos pode estar em nós mesmos. Dos outros fugimos, os outros ignoramos, com os outros brigamos, e com nós mesmos o que fazer, quando e como?
Por isso insisto que ninguém por mais entendimento ou evolução que tenha consegue passar a vida em paz consigo mesmo. Com o passar dos anos venho percebendo que com a idade e conhecimento podemos nos tornar ainda mais infelizes e sofredores, é só olhar em volta que perceberá que quanto menos inteligente e curiosa uma pessoa é, menos ela fica se questionando sobre as coisas.
E venho percebendo também que a tristeza é tão importante quanto a alegria para formação do caráter.
Para quem não conhece os números pouco lhes importam as matemáticas
Para quem nunca leu bastam as vogais, mas para quem domina o alfabeto as palavras não são suficientes, precisamos de versos, estrofes, sonetos, e infinidades de perguntas e respostas, isso é perguntas sem respostas.
E na vida é assim, quanto mais descobrirmos mais queremos saber, em contrapartida percebe-se que talvez seja melhor não sabermos, é uma confusão de ideias e sentimentos que não tem volta.
Parece mesmo verdade que as pessoas são perfeitas e interessantes quando não as conhecemos. Mas é claro que o que torna essa vida ainda suportável é o fato de uma pequena quantidade de pessoas ao nosso redor ainda continuam perfeitas e interessantes, mesmo quando descobrimos seus erros e defeitos. E se construir sonhos grandes em cima de pessoas pequenas parecer um erro, não há com o que nos preocuparmos, pois o melhor é que os sonhos podem mudar de lugar, de objetivos, de tamanho, a qualquer hora basta usarem aquilo que realmente é nosso: o poder de decisão.
Afinal as decisões só dependem de nós, pois não existe destino existem atitudes.
Sara Almeida

sábado, 31 de outubro de 2009

Girassol

Onde está o girassol, lá está a vida
De manhã tem brilho ofuscante, a noite tem a graça dourada.
Girassol é imponente e majestoso.
Ao redor do girassol não sobrevivem as ervas daninhas.
És majestoso plantado no chão, seu riso é frouxo quando é livre. Girassol flor do sol radia sua beleza.
Não nasceu para decoração e arranjo sobre a mesa.
Sua cor intensa cura minha tristeza.
Girassol exótico, intrigante, sempre cativante.
Uma flor de aparência delicada, mas de essência robusta e resistente.
Espalha suas sementes na primavera e verão.
Mas floresce abundante em qualquer estação.
Girassol floresce belo e expande sua cor.
Distante de mim, resiste ao frio e a dor.
Girassol poupa energia para quando o sol dormir.
Quero estar com o girassol, por um momento que seja, aproveitar com alegria sua companhia e admirar sua beleza.
Girassol a flor do sol, flor mais linda do meu jardim.
Por mais flores que eu plante aqui, foi com você que aprendi.
Com você que vi o sol brilhar depois de uma noite escura e fria.
Nos meus sonhos girassol esta sempre a florescer.
Entre todas que escolhi e de todas que perdi és a mais feliz das flores.
De todas elas és a mais bela, és realmente aquela.
Estar longe de você muitas vezes me faz sofrer.
Mas espere girassol, num amanhecer amarelo vou aparecer para sentir seu perfume e rir do seu riso sempre belo.
Girassol aproveite o seu brilho, seu brilho é como a luz do sol: infinita e inexplicável.
Vou seguir aqui distante, no meu estilo viajante, por um tempo incerto, até poder voltar para perto.
Daqui sinto o seu cheiro, e enxergo seu brilho.
Por uns instantes você até parece estar aqui comigo.

Sara Almeida

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Dois


Você que está sempre comigo
No jardim dos sonhos
Nas esquinas da fantasia
No pomar das guloseimas
Nas cascatas de ilusões
Nos rios de lágrimas
Nas tempestades de gargalhadas
Você que está comigo
Quando acerto bate palmas
Quando erro me corrige
Quando não sei me ensina
Nas falhas sempre me ama
Sem você não tem beijos ao amanhecer
Não tem cheiro ao entardecer
Falta o abraço a aquecer o anoitecer
Sem você sou só mais uma metade
Com uma asa só perco o equilíbrio
Com você tudo é mais belo
As gotas de chuva são brilhantes
Os raios de sol inebriantes
Nossas rosas têm espinhos de algodão
E as pedras ficam apenas no chão
Caminhamos juntos pelo cais
Somos dois e tudo mais é demais

Sara Almeida

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Animais Inteligentes no Espaço

Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares. Havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’, mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza.
Houve eternidades em que ele não estava, quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela bóia no ar com esse páthos e sente em si o centro voante deste mundo. Não há nada tão desprezível e mesquinho na natureza que, com um pequeno sopro daquela força do conhecimento, não transbordasse logo um odre; e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo telescopicamente em mira sobre seu agir e pensar.
Friedrich Wilhelm NIETZSCHE

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Desejo


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,

Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer,
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso contínuo é insano.
Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar

(Texto de Victor Hugo, adaptado por Vinicius de Moraes)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Eficiência Moral

As vezes me pego a pensar em todas as pessoas que já conheci, foram muitas e nem todas sinto prazer de ter conhecido. Algumas poderiam não ter aparecido, mas apareceram e contribuíram para meu crescimento embora por vezes eu não queira aceitar isso. Por outro lado também não sinto orgulho da minha passagem na vida delas, se as coisas correram mal a culpa também foi minha, se uma relação não produz o efeito desejado não é culpa de um só! Uma pessoa muito especial, e por vezes sábia, brinca comigo dizendo sempre: "as histórias têm sempre três lados: o narrador, o outro elemento e a verdade". Não sei se as coisas são sempre desta maneira, mas em muitas circunstâncias sim.
Conseguimos sempre ver a hipocrisia, a mentira, a falsidade, defeitos de todos os tipos nos outros, mas quando é conosco tem sempre um porém, temos sempre um grande motivo nosso para cometermos erros irrefutáveis.
Não é coisa fácil analisar as próprias falhas, tão terríveis que dói mesmo escrevê-las até num diário secreto, é sempre duro admitir as crueldades que somos capazes. Não se assustem, nunca cometi crime algum, são falhas, nada que me deixaria numa cela presa e longe da sociedade, nada que a lei determine ser perigo à sociedade. Na verdade são atitudes tomadas sem serem premeditadas, no calor dos acontecimentos, que depois me envergonha perante todos, e o pior perante eu mesma. Atitudes insanas, que me tocaiam numa prisão pior do que a de uma cela, a prisão da consciência, essa sim que nos machuca e maltrata.
Isso não é uma confissão, longe de mim, para tal teria que citar nomes e fatos, não, não sou capaz! E não pretendo me redimir, essa hipótese no meu ver seria nula. Aliás penso que desculpa não se pede, evita-se.
A verdade é que não existe sentença para crimes sentimentais, se existisse a sociedade talvez fosse um pouco mais amigável, ou não! Eu teria algumas penas para cumprir, mas também teria que processar algumas pessoas.
O que alivia é pensar que apesar de todas as deficiências morais, ainda há pessoas com boas atitudes. Até aquelas mais cenhosas, são sim capazes de um gesto de paz, basta oportunidade.
Eu mesma com todos os erros, vou me perdoando dia a dia, e tentando melhorar sempre. Nem sempre tenho sucesso, mas podem crer, sou incansável a tentar. Não tentaria se não fossem pouco mais de meia dúzia de seres excepcionais que aprendi a amar apesar dos meus defeitos e dos deles também. Penso que a tentativa esforçada de melhorar como ser humano é eficiência moral! Pode parecer mentira mas o errante torna-se perfeito aos olhos do amor, só amando para aceitar a deficiência, seja ela qual for!

Sara Almeida

sábado, 24 de outubro de 2009

Último Adeus...

Há mais de seis meses que não se encontravam, não porque eram ocupados demais, ou porque se amavam de menos. Não se viam com frequência desejada por puro desleixo, porque um tinha a certeza que o outro estava bem e já bastava.
Numa manhã quente de fim de Novembro, ela foi acordada para saber o que mudaria sua vida dali para frente: seu querido irmão se fora, já não se encontrariam mais, não mais com alegria e abraços apertados.
Ele havia sofrido um terrível acidente, que o tirou para sempre dela e de todos os familiares. Coincidência ou não, naquela noite trágica, ela havia sonhado com ele e não tinha sido um sonho bom. Percebeu ali, logo ao despertar, que esta foi a primeira péssima notícia de sua vida, tudo antes disso deixou ser importante.
Ficou desnorteada, fraca, sem reação, não podia ser, devia ser engano, desconhecidos a dizerem que ele se foi, essas pessoas não sabiam e nem sequer eram capazes de imaginar o peso daquelas palavras. Ouviu tudo aquilo como se fosse um zumbido, e desejava que nos próximos segundos palavras claras fossem ditas, sim porque não suportaria nem sequer mais um minuto essa dor.
A dor só foi aumentando, e os segundos se transformaram em minutos seguidos de horas, sim era real! Ela não sabia como, mas teria que aceitar e conviver com isso.
Todas as lembranças deles vieram imediatamente na memória, mais pareciam filme antigo. Lutou com sua mente para manter recordações dele vivo: a voz, o sorriso, o cheiro, tudo dele vivo nela, teve um medo imenso de se esquecer dele.
Sofre a pensar nos beijos e abraços não dados, nas palavras não ditas, nas atitudes mal entendidas, e chora ainda mais por não se lembrar de uma única vez ter dito a ele o quanto o amava e o quanto ele era importante para ela. Embora no fundo entenda que ela já sabia disso.
O caminho até o último adeus foi longo e doloroso. Passava por lugares conhecidos que naquele momento deixaram de ter significado. Não via ninguém, nada importava, não naquele momento, a única coisa que conseguia ouvir com clareza era o próprio choro desesperado. Em meio ao pranto parecia que toda a vida não tinha passado de sonho.
Dentro do carro ela tinha um olhar perdido, pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo. Era uma confusão de ideias e sentimentos.
Foi a primeira vez que a morte cruzou o seu caminho, levou inesperadamente um dos seus. Pensa que é mesmo assim quando menos se espera acontece, não existe remédio para esta dor, apenas o conformismo.
Por muito tempo teve a imagem dele inerte a encher sua cabeça de dúvidas e olhos de lágrimas. Conseguiu com muito esforço apagar esta imagem mórbida e mantê-lo vivo, com a imagem do sorriso bonito que ele sempre teve.
Passado um tempo seria até capaz de rir lembrando de situações felizes compartilhadas em família. E o tempo passou depressa, os olhos dela não negam que ainda chora calada ao revê-lo de alguma maneira num desconhecido na rua, ou num personagem de livro, numa letra de música, em muitos lugares, pois o carrega no coração.
Ela sofreu muito com a partida dele, e aprendeu muitas coisas também, a vida passou a ter outra face e a morte deixou de ser um medo.
Para ela viver ao lado dele foi um sonho bom. Um sonho com um jardim florido e farto de belezas, e quando acordou decidiu apagar tudo que dói e guardar o perfume que só ela consegue sentir.
Viveram boas coisas juntos, muitas mais do que ela lembra, o tempo apaga as lembranças por isso decidiu guardar o perfume.
Brincaram, brigaram, choraram, cantaram, dançaram, trocaram segredos, entre todas as coisas que os irmãos fazem juntos. Muitas luas foram testemunhas das suas diversões noturnas.
Ela respira profundamente e conclui que irmãos são para crescer juntos, por isso é muito triste aceitar que irmãos se vão.
Ela amadureceu e apesar de lamentar essa dura partida, pensa que tem ainda pessoas que precisam dela por perto. Segue o resto de sua vida, e com a marca fraterna as vezes a apertar o peito.
Ele foi embora, nunca mais voltará. Nunca mais é a coisa mais dura de se ouvir. Ainda com uma agonia latente percebe que ele ficou preso no sonho e que sentirá para sempre a falta dele, e para sempre também é difícil de ouvir.
Assume um jeito realista de encarar as coisas para sobreviver a todas as outras perdas que estão por vir.
E carrega consigo o menino dourado, seu irmão querido, que foi cedo e ainda hoje passeia em seu sonho, como uma andorinha que vem e que vai, em qualquer noite de qualquer estação.

Sara Almeida

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Simples assim


Não quero uma casa minha, minha casa é onde e o que me faz sorri.
Não quero roupas ou jóias, diplomas ou automóveis de luxo.
Nem sei os nomes dos automóveis. E que mal há nisso.
Quero mais uma bicicleta vermelha, para quando pedalar sentir o vento acarinhar minha face.
Se for daquelas de dois lugares melhor ainda, assim levo meu amor…
Passear num campo repleto de Tulipas coloridas.
Quero pular de para quedas e quando ele se abrir meu coração bater tão rápido que meu pensamento não será capaz de o acompanhar.
Sonho secretamente em voar.
Quero fazer longas caminhadas em lugares paradisíacos, subir escadas altas e quando voltar para baixo sentir as pernas tremerem tanto como se fosse desabar.
Quero continuar a não entender nada do que me dizem e demonstrar isso sem medo de não ser tão inteligente quanto posso parecer.
E depois de muito rir da minha ignorância ir atrás do livro mais completo sobre o assunto, ler tudo e a seguir esquecer se não me parecer interessante.
Quero sempre chegar a praia e pular na água, mesmo que seja gelada, e estar ali o dia todo a brincar feito criança.
Quero comer todas as coisas mais deliciosas que me aparecerem jurando que “amanhã” comerei menos. E “amanhã” nem sequer lembrar do que havia comido.
Voltar a comer seriguela minha fruta predileta, seguida de manga e jaca, huuummm!
Quero sentir tantas coisas ainda, pode ser que não consiga nem metade, mas posso descobrir tantas outras que nem imagino que existam.
Não quero deixar de ser teimosa, nem quero gostar das coisas que todos gostam só porque é moda.
Não posso abandonar minha essência assim, por uma multidão de pessoas que nem sabem definir o que sentem.
Não sei definir o que sou, nem adiantaria, cada um me define de acordo com seu olhar indiscreto ou não.
O que somos não interessa, o que importa é que o que sentimos, pois é sentindo que agimos.
Então vou seguindo este sentir e repetindo sentimentos, e corrigindo atitudes…
Sinto me bem assim!

Sara Almeida

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Perfume


Estava aqui perdida nas sensações, buscando o que escrever, o que desta vez iria exorcizar de mim. Algo me seduziu nesse curto espaço de reflexão: minha infância, não abrangente, mas, especificamente, minha infância na casa de minha avó, Dona Maria Nilce Senador.
Se me permito fechar os olhos, vou de encontro aquela varanda, de mármore frio branco e preto, um vaso de planta com flores microscópicamente tímidas de cor romã, adorna uma mesa de ferro branco mono cromática, sem muitos adjetivos, a porta, visivelmente grande para uma menina de 5 anos, com uma fechadura antiga, que eu tinha prazer de apertar com cautela, na ansiedade de chegar ao ponto marcado do pique-esconde, antes de todos os netos. Meus primos: Fred, Lara, Tati, Tiago e Vítor… Entendimentos, desentendimentos, meus irmãos temporários, todos adotados por minha avó, e que se sentiam no direito de dividir a casa em feudos particulares, fazendo um ou outro de vassalo. Domingo, natal, ano novo, aniversário ou uma eleição ganha, e lá estava ela com sua roupa impecavelmente fina e colorida, o cabelo acima do ombro - negro como ébano e com cachos quase que fabricados, unhas meticulosamente feitas e uma voz inconfundivelmente linda. Eu ficava observando-a comer, com os dedos sujos do frango suculento, e ela mastigava com a boca aberta, sem perceber, fazendo surdos barulhos de virulentas mastigações. Recebi repreensões de minha mãe por ressaltar isso ao pé do ouvido. Depois, íamos todos para a sala, uma sala grande onde cabia a todos, o que causava uma corrida quase que mortal: os netos iam primeiro, iniciando uma guerra particular pelos melhores lugares do sofá cor de marfim, onde havia uma mesa de madeira escura com tampo de vidro transparente, e que, ate o final da conversa teria de permanecer intacta, sem nenhuma mancha, principalmente de peraltos dedos.Fim de tarde, quintal, aquele onde passou tantas horas da minha vida: solidão, repreensões, desobediências, planejamentos e um intenso exercício de criação. Um parquinho particular me esperava, rodeado por um canteiro, colorido até nos mais tímidos cantos, onde ela, com todo seu esmero, mantinha-o, com uma irrepreensível perfeição. Rosas, maiores do que uma criança: vermelhas como sangue, brancas como nuvem ou rosas como um fim de tarde.Subíamos depois de horas recriando o dia anterior, esfomeados, para a mesa com seus tantos quilos de madeira maciça, robusta, de banco comprido como os de arquibancada, enfeitada com uma toalha branca, farta e acompanhada do fogão de lenha, permanentemente aceso… Cheiro de café, biscoito de “dedinho”, pinhão - que durava segundos na mesa. Minha avó acolhia todas aquelas bocas abertas, naquele ninho. E lá vinha ela do quarto para servir a comida, envolta por uma beleza leve e digna de contemplação…Ah que saudade! Eu dizia: “ o Fred puxou o meu cabelo; “ eu quero leite”;“ eu quero dinheiro” ou “, hoje não é a Tati que dorme com você, eu e que vou”, e ela, como uma boa avó permanecia calada, emitindo uns resmungos agradáveis, detrás de um sorriso inesquecível nos lábios cobertos de batom cor de boca, que ela adorava. Chegada a hora de dormir e a casa ainda permanecia em movimento: travesseiros, conversas chegando ao fim, cigarros, vinho, cervejas dançando pela cozinha. Eu, a neta caçula, sempre chegava por último, carregando todos aqueles cobertores e apetrechos, que, juntos, formavam um monstro macio três vezes maior do que quem os carregava. Ela batia a mão ao lado da cama, já com os óculos acoplados no nariz, o livro na mão e o abajur cor de ouro acesso no canto direito da cama. Eu pulava para cima daquele colo e me afogava na alegria de ter chegado a minha vez de acompanhá-la pela noite de sonhos e pesadelos. Abraçava-a forte, o corpo macio e uma pele que nunca toquei igual: macia como um pêssego, mesmo já estando na faixa da “Terceira idade”, impregnada do cheiro do desodorizante azul, que ficava espalhado pelo quarto. Isso tudo fazia com que eu me sentisse segura, nos meus quatro aninhos, quando eu era levada para a casa dela para o deleite de meus jovens pais. Lembro meus olhos vermelhos de medo do abandono, sentados no muro da varanda, segurados pelos roliços braços de minha avó, vendo os meus pais, já sorridentes pela bebida, partirem tranquilos para mais uma imatura noitada.
Aquela casa, era meu porto seguro… Aí, eu era posta na cama, e conversávamos horas, ela 60 e poucos anos e eu nos meus interrogativos cinco. Uma companheira, guerreira, eterna, mãe, avó e amiga.
Como a saudade dói minha querida avó, como você faz falta nessa família que se abrigou tantos anos em seu ventre, mas a saudade existe para ser sentida e você, para ser lembrada. Veio a doença, insistente - e esse é um assunto que não merece abordagem intensa, somente breve e inevitável citação. Mas da segunda vez, o câncer veio mais forte, foi quando a vi desaparecer devagar: primeiro o batom, depois o cabelo, o livro, os biscoitos, as roupas de seda e por fim sobrou apenas uma toalha branca e algumas migalhas de pão.
O piano emudeceu, como emudeceram as fotos de rostos conhecidos que o enfeitavam. Até que um dia a Senhora Morte se compadeceu e sem mais dor nem alarde cortou o fio dourado, fechando a última porta, levando consigo aquela que ainda perdura.
Mas o riso alegre, o passo enérgico, o perfume, a música, a voz e aquelas rosas, aquelas rosas permanecem comigo...Imagens inesquecíveis de quem já partiu… Mesmo que já se tenham baixado todas as cortinas…

por Isis Valverde
BlogBlogs.Com.Br