sexta-feira, 10 de junho de 2011

Introspecção

Quando me dirijo ao mundo interior, não é para escapar do barulho incessante das ações, das exigências e confusões dos outros. Não é para alienar-me dos acontecimentos e das pessoas. É para fertilizar o solo interno, onde todas as minhas virtudes e poderes podem brotar, crescer e desabrochar. Quando estou bem alimentado por dentro, não me torno um mendigo do amor ou de respeito, porque sei ser meu próprio amigo e amigo dos outros.
{Ken O´Donnell, Lições para uma Vida Plena}

terça-feira, 7 de junho de 2011

de(li)cada melodia

se eu fosse feliz seria poeta
mas sou de uma felicidade discreta
e de melancolia sou repleta
sou a mente que alimenta a folha vazia
se fosse ao menos poesia
no meu peito triste só morava alegria
já não sou com dantes era
não sou bela
nem mesmo tenho delicadeza singela
se fosse poeta me escondia nas virgulas
e fugia nos pontos finais
se fosse poesia seria vistosa
até a dor pareceria espantosa
como nunca fui poeta
e de poesia sou vazia
poderia ser melodia
e acompanhar o poeta até dar som a poesia
nunca serei poeta nem poesia
mas vou deixar de ser vazia
e transformar em melodia
toda minha melancolia.
SA

sexta-feira, 27 de maio de 2011

(cri) aturas

é um sentir que atormenta
que tu sabes o que é
mas não percebes porque acontece
desabrocha quando menos esperas
e murcha quando começas a entender
desaparece e nem percebes
e regressa intensamente
a te lembrar da dor de se ser
e quando pensas em esquecer
aí sim que faz doer
só sente quem é
não desejas
nem procuras
apenas existe e perdura
a dor de ser criatura
SA

domingo, 1 de maio de 2011

nossas palavras

nossas palavras. caladas se enroscam. suaves se encaixam. palavras as nossas. que doem. que curam. essas palavras que queimam por dentro. definem o momento. aquelas palavras guardadas na mente. soltas nos olhos. palavras as minhas, que a você se rendem. suas palavras, que a mim surpreendem. as primeiras palavras. as que ainda se repetem. tantas palavras ao corpo aquecem. últimas e difusas. derradeiras palavras, que regogizam. e depois adormecem. palavras que traduzem. um ao outro seduzem. que gritam ao silêncio. palavras únicas...nossas palavras. silenciosamente cantadas. duplamente encantadas. SA

domingo, 24 de abril de 2011

Dispersão


"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim."
{Mário de Sá Carneiro}

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Revigorar

Ninguém aprende a viver pela experiência alheia;
a vida seria ainda mais triste se, ao começarmos a viver,
já soubéssemos que viveríamos apenas para renovar
a dor dos que viveram antes.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Céu de Primavera

Em busca das boas lembranças me encontrei naquelas primaveras passadas, onde sol invadia cedo as janelas do quarto.Dormíamos todos, meninas e meninos, naquela mistura que até parecia ser eterna. No fundo sentíamos que os anos passariam num piscar de olhos, e só hoje percebemos isso. Sugamos cada segundo dos dias, desde o nascer do sol delicado da primavera, até o adormecer a olhar para as estrelas. A última a ser fixada seria a estrela a embalar os nossos sonhos infantis. Todas as manhãs, a cada raio de sol que surgia a tocar as cortinas bordadas, a cada cheiro do café, da manteiga derretida no pão quentinho, nesses bons momentos percebíamos que as estrelas que nos enfeitavam as noites com sonhos um dia seriam as mesmas que carregariam nosso corações de saudades. Aquele sol nos banhava de luz, e não existia pressa para nada. As árvores nos abraçavam com suas sombras, e as flores nos alegravam com os melhores perfumes, nossas brigas fraternas eram tão rápidas quanto nossas reconciliações. O importante era não ter pressa para fazer as boas coisas, e as coisas más, bem destas nos livrávamos rapidamente. Era uma sabedoria delicada, uma liberdade aproveitada, foram sentimentos divididos, cicatrizes que não permitíamos ficarem profundas, tipos de ser e sentir que só nós entendíamos, alheios a tudo, num mundo que hoje seria conto infantil. Éramos como uma pulseira de contas, o fio principal se rompeu e as contas se espalharam por um mundo muito diferente daquele, onde o sol de primavera já não nasce quando devia, as flores mudaram de cores, e as árvores que nos abraçavam ficam muito distante de nós. E quando raramente nos vemos nossos corações procuram em vão a corrente, mas nossos olhares ser cruzam e sabem que cada conta foi deixada num rio diferente, ainda levará muito tempo para que todas se encontrem no mar. Nos reencontros poucas são as palavras, por opção, deixamos que as estrelas reinventem os sonhos para que a cada amanhecer o sol possa realizar ou simplesmente saudar. SA
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