domingo, 27 de março de 2011

Sób-ria.

eram apenas pensamentos negros, que passariam, disse ele

mal sabe ele que tais pensamentos são dominantes

pensamentos brancos é que passam e toda aquela conversa e abraços acolhedores eram apenas circunstanciais

pareciam embebedar e deixar a alma alguns bons centímetros longe do corpo

mas era este efeito passar e toda aquela negritude voltar

latente e gigante como aquelas chuvas torrenciais

que nos remete a amargas lembranças e vai se embora levando encaixotados detalhes ruins de nós mas volta sempre com as caixas molhadas, desfeita...

expondo todas aquelas feridas desfazendo cicatrizes,

e espalhando o sangue espesso em volta de nós

não é fácil ser dominado por pensamentos,

o natural seria domá-los ou ao menos ter a capacidade de encaixotá-los

com caixas maciças e lacradas e neste espaços de sobriedade reconfortante

pode-se viajar por dentro de nós de um nós fresco e desinteressado,

este que deveria acordar e dormir delegando as funções vitais,

mas existe muito mais que cabeça, tronco e membros,

a maior de todas as partes a parte dominante que nos ocultaram: o pensamento

este ser que é o dono de nós,

e que temos que descobrir, conhecer, desvendar e conviver

duramente dias e dias, horas e horas, e a cada segundo

sentir ele a martelar a essência e colorir o que quer, ou descolorir o que não queremos

e a luta constante na verdade não era com o mundo lá fora

levamos tempo a perceber, e ainda mais tempo a nos convencer

que a vida é bem mais que viver, muito mais que vencer... o segredo é guardar nos bolsos as boas coisas

aquelas que encontramos espalhados na sobriedade

trazer tudo e sair espalhando sempre que podemos

e não permitir que nas horas negras seja fechado o caminho

para o frescor de sermos nós mesmos.

SA

sábado, 26 de março de 2011

reflet-ir

uma pequena semente ruim plantada hoje
será uma gigantesca árvore em nosso caminho amanhã
SA

terça-feira, 22 de março de 2011

pensamento = palavras caladas

por vezes são precisas tanta horas para explicar um pensamento
embora existam palavras, o tempo é curto
conseguimos pensar uma vida em um segundo apenas
mas nossas palavras são lentas e em alguns casos desnecessárias
SA

quinta-feira, 17 de março de 2011

sorte-ando

por muitas vezes eu não quero que o amanhã chegue, não por medo ou coisa assim, apenas porque acho desnecessário
esperar tanto por uma coisa que nunca virá...
que eu permaneça neste eterno hoje
e encontre sempre um novo suspiro de sorte
SA

segunda-feira, 7 de março de 2011

nova estação

começando pelas pequenas coisas
vendo diferenças nos pequenos detalhes
como a primavera ressurgindo suavemente após o gélido inverno
de repente volta a sentir aquela saborosa felicidade
e todos os nebulosos pensamentos, até mesmos os mais dolorosos
vão se embora lentamente, e quem sabe definitivamente
assim eu espero
SA

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Incurável(mente)!

em alguns instantes minha consciência se vê invadida por um estranho desejo,
que pode parecer controverso: manter a consciência e o desejo algemados.
consciência e desejo num único caminho sem sufocamentos.
com uma pequena distância da corrente que separa as duas argolas,
mantendo desejo e consciência circularmente envoltos e singulares,
unidos mas não grudados, juntos mas não iguais
cada qual com sua particularidade, portanto atitudes simultâneamente traçadas.
a mim, me parece que teria uma bela ciranda marcada com o fecho das algemas,
mas tal pensamento acaba por vir pela mistura insana daquilo que sou e do que tenho.
tenho consciência que sou mais desejo que consciência
tenho desejo de ser mais consciência do que desejo
não existiria em mim algo tão equilibrado entre o desejo e a consciência,
simplesmente porque equilíbrio requer muita prática, que requer paciência...
paciência, recordo do nome, porém o conteúdo me foge sempre que me esforço por lembrar...
e volto sempre ao mesmo de mim, o que existe de incurável
em mim existe nem pouco, nem mais do que querer o que não é possível:
ser consciente dos desejos e ter desejos conscientes.
apenas sou assim bem humanamente imperfeita, desejando ser melhor e consciente de que ainda serei pior!
SA

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Lágrimas Ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
Florbela Espanca
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