quarta-feira, 31 de março de 2010
terça-feira, 30 de março de 2010
Libelo
De que mais precisa um homem senão de um pedaço de mar - e um barco com o nome da amiga, e uma linha e um anzol para pescar?E enquanto pescando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos, uma pro caniço outro pro queixo, que é para ele poder se perder no infinito, e uma garrafa de cachaça pra puxar a tristeza, e um pouco de pensamento para pensar até se perder no infinito...
- Mas o mar está preso em correntes, e é preciso por ele lutar!
De que mais precisa um homem senão de um pedaço de terra - um pedaço bem verde de terra - e uma casa, não grande, branquinha, com uma horta e um modesto pomar; e um jardim - que um jardim é importante - carregado de flor para cheirar?
E enquanto morando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos para mexer na terra e arranhar uns acordes no violão quando a noite se faz de luar, e uma garrafa de uísque para puxar mistério, que casa sem mistério não vale morar...
- Mas a terra foi escravizada, e é preciso por ela lutar!
De que mais precisa um homem senão de um amigo pra ele gostar, um amigo bem seco, bem simples, desses que nem precisa falar - basta olhar -, um amigo desses que desmereça um pouco de amizade, de um amigo pra paz e pra briga, um amigo de casa e de bar?
E enquanto passando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos para apertar as mãos do amigo depois das ausências, e pra bater nas costas do amigo, e pra discutir com o amigo e pra servir bebida à vontade ao amigo?
- Mas o amigo foi ludibriado, e é preciso por ele lutar!
De que mais precisa um homem senão de uma mulher pra ele amar, uma mulher com dois seios e um ventre, e uma certa expressão singular? E enquanto passando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de um carinho de mulher quando a tristeza o derruba, ou o desatino o carrega em sua onda sem rumo? Sim, de que mais precisa um homem senão de suas mãos e da mulher - as únicas coisas livres que lhe restam pra lutar pelo mar, pela terra, pelo amigo...
Vinicius de Moraes, Abril de 1950 {Para uma menina com uma flor}
sábado, 27 de março de 2010
Sintonia
Um pedaço de nós está em cada fotografiaEm cada casa que moramos ecoa nossa alegria
E olhos alheios insatisfeitos e ciumentos
Inventam, difamam nosso amor pelos ventos
Mas nada é capaz de mudar este alento
É dupla carne num só sentimento
É dupla caminhada num só pensamento
Nosso amor é viva poesia
Não tem fim ao escurecer da noite
Nem acaba quando nasce o dia
É assim doce como melodia
E quem quiser olhar que ria
Porque é simples, beleza e alegria
Nossa eterna sintonia
Sara Almeida
Sara Almeida
quarta-feira, 24 de março de 2010
Paciência
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência..."
(Lenine)
terça-feira, 23 de março de 2010
Som do coração
Muitas manhãs preciso voltar a mim mesma, num tempo e espaço diferente dos que tenho aqui.Aquele tempo que as estrelas cadentes brilhavam bem no momento do pedido como passe de mágica.
Tempo que as nuvens formavam belos desenhos no céu, e a única coisa que sabia delas é que eram idênticas ao algodão doce do parque, por muito tempo ninguém foi capaz de me tirar esta fantasia.
As casas eram cheias, e as mesas tinham sempre bolos, biscoitos feitos naquele mesmo dia. Desse tempo que ficou tão distante, ainda sinto as texturas, as cores, os cheiros e os sabores.
O cheiro das pessoas as vezes é trazido pelo vento e consigo ouvir até a conversa de outrora.
Sou capaz de descrever cada detalhe do que vejo nesse paraíso do passado, há pormenores sentidos aqui dentro, até me lembro como era fechar os olhos ao balançar na rede e ouvir meu coração.
Quando ouvia meu coração daquela maneira, além dos batimentos de um músculo involuntário, não tinha em mim o peso das mágoas, eu voava bem longe sem sair daquele ir e vir do balançar.
Aquele tempo vivia num lugar seguro, um lugar seguro dentro de mim, lugar que há muito me esqueci.
Muitas manhãs preciso reaprender o que fui, pois as vezes pareço saber só o que é estar aqui, sentir o que é daqui. E fico cansada, com vontade de desistir de mim, pois não sou daqui. Sinto um nó em mim.
Fico cansada por que aqui tudo pesa mais, e os sorrisos são raros, os bolos são mofados, e a rede é antiguidade.
Cada vez que volto aquele lugar distante, numa tarde quente, ou numa noite de música, seja lá qual for o cenário me faz mais leve e capaz de misturar a parte boa do que fui com a parte necessária do que sou.
E todos os dias me vejo reaprendendo a ser eu, misturando os sentimento daqui e de lá, e aprendendo a misturar o ser e o estar para novas lembranças formar e novas estrelas apreciar.
Sara Almeida
segunda-feira, 22 de março de 2010
O Louco
Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!”
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!”
Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim me tornei louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.
Gibran Khalil Gibran
sexta-feira, 19 de março de 2010
pozinho mágico
Ali bem ao pé de mim a felicidade escancarada, como se me convidasse a um passeio eterno.Não sou criança sei bem que nada é eterno, mas entreguei aquele dia, aquela hora, aquele momento e segui a aventureira felicidade.
Descobri coisas inimagináveis, irrepetíveis. A maioria das pessoas normais não entenderia, só as loucas, sonhadoras e sentimentais como eu. Porque cada vez que a felicidade vem é a mesma e é diferente.
As vezes parecíamos voar, aliás tinha tanta certeza de estar no ar, quando olhava para baixo sentia pena de quem lá estava.
Sentia até uma certa culpa sabe, por estar assim em êxtase, mas eu tive coragem e então merecia gozar cada segundo ao lado da felicidade.
Não pude ficar por lá muito tempo, ela seguiu sozinha, foi capturar alguma nova criatura tão aberta a aventura quanto eu.
Eu que estava bem cansada não seguia aquele ritmo por muito tempo, já ia tudo virando rotina.
Mas fui ardilosa, e fiz um pacto com esta tão cobiçada felicidade. Concordamos bem que de tempos em tempos ela me visitaria e eu simplesmente me entregaria sem hesitar.
Viesse ela como fosse, colorida ou não, em forma de sentimento ou direção, eu simplesmente pegaria em sua mão e flutuaria sem direito a sim ou não.
E assim tem acontecido, quando menos espero, ela vem resplandecente, entra pela janela, ou abre a porta aos gritos, assim sem me avisar de antemão, só sei que é ela quando já não tenho os pés no chão.
E me entrego, aos sorrisos e lágrimas de alegria, consciente que não tem luz no mundo capaz de acender a vida uma vez apagada, pois a vida é assim como um pozinho mágico que quando menos esperamos acabou. Enquanto a luz brilha a felicidade pode aparecer ao menos um segundo, em qualquer lugar do mundo, é só deixar ela entrar e voar!
Sara Almeida
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