quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Lado a lado

Quantos lados você tem?
O lado do bem e o do mal também.
O lado que magoa e o que quer bem.
O lado seu e o que lhe fica bem.
Tantos lados você tem!
Tem o lado belo e aquele outro que não quero.
O lado de menino e outro de animal faminto.
O lado suave e aquele rude.
Aquele frio e estúpido, contraposto com o carente.
O lado do dia, e tem dias.
O lado da noite, que acalma até a fala.
Tem assim estes lados:
De presente a desagrado.
E quanto mais encontro os segredos dos seus lados
Mais me agarro ao seu abraço.
O lado oposto ao seu cansaço.
O lado que te guia os passos.
E além dos lados que você tem:
Tornou-se um dos meus lados também.
Sou agora mais um lado que você tem.
Sara Almeida

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Coisas desenfreadas

Sempre escrevo coisas desenfreadamente, coisas pequenas do meu quotidiano e coisas grandes e profundas do meu coração, embora escrever seja uma das melhores coisas para mim tudo que escrevo passado algum tempo parece ridículo, ou é como se alguém mais inteligente e criativo já tivesse escrito a respeito de tudo e já não me resta o que dizer.
Ainda assim continuo a pensar que escrever é mais que um prazer, a mim parece mais uma devoção. Nos momentos mais inoportunos vem em minha mente as melhores frases, as palavras mais significativas, o elogio ou crítica com mais astúcia que já pude dizer, escrever ou se quer pensar quando necessário.
Na calada da noite quando todos estão a dormir e eu tenho mesmo que descansar, pois no outro dia tenho sempre uma longa jornada, aí vem aquela voz interior a me dar sentenças a respeito de tudo que já vivi, lembrando-me de coisas já adormecidas.
Quando estou atarefada com qualquer situação da qual não posso me ausentar, aí vem ela com a deixa perfeita para a introdução daquele livro que um dia quando menina pensei que talvez num futuro promissor pudesse escrever.
Tentei em muitas ocasiões apenas afastar esta voz, enganá-la dizendo que assim que tiver em casa, ou num sábado que não farei nada importante, quem sabe quando comprar uma mesa e cadeira confortáveis poderei então estar horas a fio escrevendo todos os assuntos que tenho aqui guardados.
Porem estando decidida a começar colocar todos os sentimentos para fora descubro que a voz ainda cá está, por vezes inoportuna que quer dividir as belas coisas da vida em qualquer momento e lugares, ingénua não sabe que para isso terá que detalhar os subterfúgios. Já outras vezes ela é a que não me deixa ir a lado algum, a que deixa tudo para quando comprar isto, quando ter aquilo, é aquela que confunde o medo com racionalidade, e é na verdade uma falta de fé que joga tudo fora antes mesmo de tentar arrumar.
Vou tentar usar as melhores lembranças, cada uma delas, para fazer um relato de mim e dos meus. Por enquanto deixo os dedos deslizarem delicadamente, e na mente a voz da minha essência ditar palavras, e conto o que ouço aqui dentro sem grandes expectativas. Escrevo para me sentir viva. E vai assim nascendo e renascendo coisas, vou observando tudo na intensidade da respiração, e assim nasce uma nova história. Calo-me até a próxima história ganhar vida, e a vida ganhar uma nova história.
Sara Almeida

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Clarabela

Clarabela era uma menina matreira, com uma mente ativa e fértil, sonhava com o dia em que fugiria do quintal de sua mãe para conhecer coisas do mundo, como as que a professora lhe contava nas histórias lidas na escola.
Queria navegar para além das ruas que caminhava todos os dias, ver o verde em outros tons, ouvir os pássaros de outras paisagens, sentir cheiros diferentes daqueles que já faziam parte de si.
Certo dia ouviu na rádio uma notícia sobre o Egipto, ficou completamente fascinada, e decidiu naquele mesmo momento que ainda iria visitar as Pirâmides de Gizé, ainda que lhe custasse muito, trabalharia o suficiente para esta viagem.
A menina passou a se deliciar imaginando que quando chegasse a este lugar de nome tão engraçado, subiria as tais pirâmides e lá do cimo olharia o mundo todo, sentia-se até tonta antes mesmo de lá estar.
Mal sabia o quão longe ficavam as pirâmides, e quando sua mãe lhe contou achou que era mais uma mania da mãe de lhe afastar das diversões.
Perguntou a professora se do alto das pirâmides seria possível ver a escola, a professora admiradora das invenções de Clarabela não teve coragem de dizer que não. A menina então concluiu que o caminho para as pirâmides devia começar por aquela rua por trás da sua casa, pois a mãe sempre lhe proibia de lá ir, e de certeza era por medo de a perder de uma vez por todas. Sim porque Clarabela teria coragem de ir muito além de sua cidade para descobrir todas as coisas bonitas do mundo.
Num fim de tarde de verão saiu para um passeio com o avô, que era uma criatura muito querida e o único adulto inteligente que ela conhecia, além da professora é claro. A menina estava radiante, pois com o avô aprendia coisas indispensáveis, só não percebia porque sua mãe nunca aprendeu grandes coisas, mas ficava calada e ouvia.
O avô de Clarabela, explicou-lhe que o Egipto ficava muito distante, depois do mar, pessoas do mundo todo iam visitar as pirâmides, falou sobre a cultura, e as antigas dinastias do Egipto. O que deixou a menina ainda mais interessada, e com pena da professora que afinal nem sabia tanto sobre as coisas do mundo.
Clarabela ficou muito feliz foi por finalmente perceber que sua mãe tinha razão em muitas coisas e que não a queria em perigo, o único problema que ainda a atormentava é que a mãe ia ficar para sempre naquele quintal e ela queria ir mais além, e pelos vistos teria de ir sozinha.
O Egipto continuou nos planos, e outros mais surgiram. Com a ajuda do avô a menina conheceu histórias do velho continente: suas guerras, descobertas, construções e filosofias. Clarabela queria conhecer tudo e saber as outras línguas, e sentiu que mesmo que não fosse ao Egipto, Itália, França, Patagónia, e todos os outros lugares com nomes tão lindos, ainda assim poderia sempre viajar nas histórias, perder-se nos sonhos ao ouvir palavras lindas de outro habitante de um quanto qualquer do mundo.
Se o avô que nunca saiu daquela pequena cidade era tão sábio, é porque ela também poderia ser, como o avô disse: “o conhecimento não tem fronteiras.”
A pequena crescia feliz e astuta, com um mundo todo a sua frente, cheia de desejos, sonhos e planos dentro do coraçãozinho inocente.
Clarabela, era clara e bela, com cabelos soltos castanhos dourados, olhos cor de mel, curiosos e profundos. Não sei dizer onde foi parar aquela menina, que bela mulher tornou-se, nem em quantos mares navegou.
Vez ou outra invade meus pensamentos com seu ar de boneca e histórias de mundos novos repletos de coisas bonitas.
Clarabela era daquelas pessoas que acrescenta ao mundo uma pitada de magia.
A última vez que a vi estava apaixonada por balonismo. Se calhar voa de uma cidadela a outra enfeitiçando a todos com suas fantasias de menina. Quem sabe até sobrevoou as pirâmides com seu próprio faraó a bordo.
Sara Almeida

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Arte repetida

O que seria da vida sem a melodia de uma boa música a fazer bailar nosso corpo ainda que completamente imóvel;
O que seria da vida sem um filme que a história seja tão bela que nos transportemos a ela como personagens principais;
O que seria da minha vida sem o trocar de nossas palavras…
O que seria de mim sem ler as palavras tuas e sabê-las minhas ainda que meu sentimento seja completamente diferente do seu;
O que seria do mundo sem a arte para tapar os buracos abertos pela estupidez humana…
A arte pode ser ternura pura de uma alma impura!
Qualquer forma de arte tem o poder de traduzir imensos sentimentos numa simplicidade única;
Escrever pode ser arte para acalmar meus pensamentos aflitos.
Música é arte para estabilizar minha desorientação.
Arte é tudo que não é belo mas tem a forma que a beleza deseja ver;
Arte é singular.
Arte, para mim, é aquilo que faz chorar feliz meu coração.
Viver pode ser uma arte.
Basta ver com os olhos de beleza tudo que esta por trás da tristeza;
Sou eu a própria arte de artistas amadores:
Nunca fui planejada;
Outras de mim tentaram vir...
Fui esculpida num lapso de desejo,
Emoldurada com amor imaturo e conveniente.
E saí arte do que a beleza desejou ver.
E desde que me vi arte inacabada de seres utópicos,
Me entreguei metade a realidade, metade a fantasia da essência que me foi dada.
Agora sou uma música sem arranjo.
Um filme sem roteiro.
Um livro sem título.
Uma história repetida cada vez que a palavra é escrita.
Sou como tu: mais uma, menos uma…
Vim de milhares, e de milhares faço parte.
Em busca da minha maneira de fazer arte.
Sara Almeida

domingo, 15 de novembro de 2009

Espaço vazio

Ando perdida em meus pensamentos
sufocada por ideias impensáveis
sofrendo de uma mal sem cura
o mal de mim mesma
sem sentido para vida
tem em mim um buraco gigante
astro nem estrela será capaz de preencher
é um vazio comum a qualquer humano
apenas eu o admito
apenas eu faço perguntas
apenas eu sei que as perguntas não tem repostas
qualquer tentativa de entendimento seria um falhanço
sou eu por mim e contra mim
tenho muitas coisas
mas o ter é pouco
o saber nunca é suficiente
minha mente esta a cada dia mais ativa
e não tem nada a ver com distúrbios psíquicos ou falta de amor próprio
com tristeza ou confusões sociais
tem a ver com a realidade
com a certeza de que o nada existe
e meu tudo é muito profundo
quanto mais penso menos sinto
porque ter este vazio é o mesmo que não sentir
o ar esta a entrar e sair mecânicamente de mim
e o frio que congela meu corpo é menor do que aquele que dominou minha alma
minha alma que é a essência desconhecida
é a força que luta para dominar-me
enxergo através de um clarão um buraco negro e profundo
não existe um mundo
isso tudo parece mais uma invenção qualquer de um ser que nunca foi nada
como uma onda de fumaça que pode ter forma de tudo e na verdade não ser nada
sou um pensamento perdido
um desejo reprimido
um olhar cego
um beijo seco
um toque amortecido no ar
sou um não ser e viver
um estar e não fazer
sou a cada dia menos do que fui
e a cada segundo mais do que desejei
e não há remédio, não há esperança e nem fé
nada pode parar o turbilhão de porquês que flutuam em mim
sou assim um começo sem fim
perdida dentro de mim
Sara Almeida

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Essência Concreta

Despreocupada, flexível, inebriada…
Talvez até embriagada de um contentamento tolo
É assim que sigo, quer queira quer não
Terei que partir sempre de algum lugar
E partirei em direção a outro lugar qualquer
Entre escolher a opção e aceitar a imposição
Obriguei-me a escolher a opção imposta
Por mais livre pareço ser
Sou na verdade brutalmente aprisionada
Num sistema de fatos, atitudes e situações
Não agrada-me em nada ver e fingir não enxergar
Sentir e me camuflar
Perceber meus pensamentos gritantes e calar
Mas o que me agrada é pouco importante
Sou apenas um grão de areia
Uma gota do oceano
Uma partícula não condensada
Sou tão pequena quanto isso
Me refugio nas palavras obscuras e metafóricas
Porque se dizer tudo aquilo que ecoa na massa cinzenta pensante
Talvez transgrida leis e decretos
Tratados e regulamentos
Que na realidade não são respeitados
Por aqueles que os infundiram
Tenho que seguir sempre
E juntar-me a uma massa (es)calada, (des)acomodada, (in)conformada
E ver tudo passar como um filme claro e colorido
E ser um espectador cinzento
Pois se for preto ou branco, oito ou oitenta
Serei taxada como rebelde
Então por ora fico domesticada
Até que o silêncio das minhas palavras seja maior
Que a minha embriaguez tola
Quem sabe assim serei a própria essência
E de abstrata a concreta eu atinja a minha meta
Ainda que pequena como um grão
Ou sensível como uma gota
Mas fundamental como uma partícula.
Sara Almeida

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Da chegada do amor

Sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.
Sempre quis um amor que elaborasse
Que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo
no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor
que coubesse no que me disse.
Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo
BOM DIA!
morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro
coisa da mesma embocadura
sabor da mesma golada.
Sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.
Sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.
Sempre quis um amor
que não se chateasse
diante das diferenças.

Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar
o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.

Contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério;
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.
Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.
Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.
Sem senãos.
Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.
Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.
Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.

Sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.
Sempre quis um amor não omisso
e que sua estórias me contasse.
Ah, eu sempre quis um amor que amasse.

(por Elisa Lucinda, do livro "Euteamo e suas estreias")
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