quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O tempo que ganhamos

Onde foi parar o tempo que ganhamos?
Havia mais terrenos baldios. E menos canais de televisão.
E mais cachorros vadios. E menos carros na rua.
Havia carroças na rua. E carroceiros fazendo o pregão dos legumes.
E mascates batendo de porta em porta.
E mendigos pedindo pão velho. Por que os mendigos não pedem mais pão velho?
A Velha do Saco assustava as crianças. O saco era de estopa.
Não havia sacos plásticos, levávamos sacolas de palha para o supermercado.
E cascos vazios para trocar por garrafas cheias.
Refrigerante era caro. Só tomávamos no fim-de-semana.
As latas de cerveja eram de lata mesmo, não eram de alumínio.
Leite vinha num saco. Ou então o leiteiro entregava em casa, em garrafas de vidro.
Cozinhava-se com banha de porco. Toda dona de casa tinha uma lata de banha debaixo da pia. O barbeador era de metal, e a lâmina era trocada de vez em quando. Mas só a lâmina.
As camas tinham suporte para mosquiteiro.
As casas tinham quintais. Os quintais tinham sempre uma laranjeira, ou uma pereira, ou um pessegueiro. Comíamos fruta no pé.
Minha avó tinha fogão a lenha. E compotas caseiras abarrotando a despensa. E chimia de abóbora, e uvada, e pão de casa.
Meu pai tinha um amigo que fumava palheiro. Era comum fumar palheiro na cidade; tinha-se mais tempo para picar fumo. Fumo vinha em rolo e cheirava bem.
O café passava pelo coador de pano. As ruas cheiravam a café. Chaleira apitava.
O que há com as chaleiras de hoje que não apitam?
As lojas de discos vendiam long plays e fitas K7. Supimpa era ter um três em um: toca disco, toca fita e rádio AM (não havia FM).
Dizia-se 'supimpa', que significa 'bacana'. Pois é, dizia-se 'bacana', sacas?
Os telefones tinham disco. Discava-se para alguém. Depois, punha-se o aparelho no gancho. Telefone tinha gancho. E fio.
Se o seu filho estivesse no quarto dele e você no seu escritório, você dava um berro
pra chamar o guri, em vez de mandar um e-mail ou um recado pelo MSN.
Estou falando de outro milênio, é verdade.
Mas o século passado foi ontem!
Isso tudo acontecia há apenas 20 ou 25 anos, não mais do que o espaço de uma geração.
A vida ficou muito melhor. Tudo era mais demorado, mais difícil, mais trabalhoso.
Então por que engolimos o almoço? Então por que estamos sempre atrasados? Então por que ninguém mais bota cadeiras na calçada?
Alguém pode me explicar onde foi parar o tempo que ganhamos?

Marcelo Canellas

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Prisma



Existe alguém dentro de mim.
Existe alguém muito além do que podes imaginar...
Apesar de me julgares ninguém, sou alguém!
Alguém que pinta seu próprio mundo com as cores disponíveis na paleta;
Antes que tudo escureça, antes que domine a cor preta.
Existe dentro de mim alguém que quer ver cores variadas,
e fantasia as cores em todos os lugares que os olhos possam enxergar;
Que muda a cor do mar, colore o caminhar, que tem muito para dar...
Para quem quer enxergar, e quem merece escutar, sou um arco-íris,
que só mostra as cores a quem espera a chuva passar...
Em mim existe alguém que sente quando erra, e erra porque sente!
Não posso culpar-te se enxergas outra cor em mim.
Mas existe aqui cores muito além daquelas que podes ver.
Assim como deve haver em você um outro ser que eu não quero conhecer.
E teimo em dizer que existe cores em meu ser!

Sara Almeida

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Divagando

Tenho encontrado pessoas;
Pessoas de várias maneiras;
Pessoas bonitas e pessoas feias;
Alguns me amam, outros me odeiam...
De algum modo todos me presenteiam;
Uns com alegria, outros com tristeza;
Eu também não lhes devolvo apenas beleza...
Analisando bem, é difícil saber quem é quem;
Poucos são verdades, os outros o que convém;
A maioria fingem se de amigos;
E são mais perigosos que os inimigos...
Os anos passam e alguns permanecem;
São raros os que vão e de nós não se esquecem;
Se viva for nossa lembrança dos bons,
entenderemos que fazer amigos é um dom...
Eu não tenho grande talento;
Para muitos fui um desalento.
Difícil acreditar nas pessoas
e mesmo assim ainda ser boa!
Tenho visto atitude mesquinhas
entre desconhecidos e até vizinhas;
Quase desacreditei das relações.
Pensando que sempre perdiam as emoções;
Mas encontrei uns poucos companheiros,
que demonstraram ser guerreiros.
Capazes de lutar com o mundo inteiro
em busca de amor verdadeiro.
Foi só assim que percebi,
bons sentimentos não têm fim.
Que os bons estejam ao meu lado,
para curar qualquer desagrado
E se não sobrar nenhuma bondade
que eu tenha lembrança, não saudade!

Sara Almeida

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A morte do pipoqueiro

Adoro geleia de mocotó. É sim, aquela clarinha, que tem um casca durinha...huummm... Mas é difícil de encontrar. Procuro sempre nos postos de estradas, mas o que tem lá é uma massa horrorosa, com gosto de plástico...No mercado municipal de Belo Horizonte, quase enlouqueci ! Tinha de todo tipo. Não vejo a hora de voltar pra lá e buscar mais...
E você, já tomou uma tubaína? Comeu aquela pizza de padaria? E o pudim de padaria?
Me escreve o Luciano Dorin: “ Com o confinamento das salas de cinema em shoppings, nesses gigantescos complexos importados, foi-se embora o pipoqueiro (que também vendia amendoim torrado quente...). Foi-se embora o vendedor de algodão doce. Foi-se embora um pouco mais da nossa cultura gastronômica (!) popular. Sobretudo foram-se embora os preços baixos da pipoca, o saquinho de 50 centavos. Vieram os modelos super-size made in USA com a potencial obesidade inerente. Afinal, isto aqui é um País de subnutridos!”. “Cultura gastronômica popular”. Que grande achado.
Que tal o sonho de padaria? E aquela raspadinha de gelo com xarope doce? Talvez a garapa com gelinho e limão? Quiçá uma pururuca? Ou bala de goma?
E aquele chá batido com leite em pó lá da Ipiranga com a São João?
Ou um Sanduíche de pernil? Ou o Bauru do Skinão, lá em Bauru, inigualável? E bote aí o que mais você lembrar...
É engraçado como essas pequenas, engordantes e irresistíveis maravilhas vão desaparecendo de nossas vidas. Podemos chamá-las de “cultura gastronômica popular”?
Penso que sim. Concluo que cada um tem sua sofisticação. Mas o principal talvez não esteja no sabor e sim na capacidade que cada um desses petiscos ou quitutes ou pratos, tem de destravar nossa memória. Pizza de padaria só tem aquele gosto, na padaria.
Aquele chá da Ipiranga com a São João, só tem aquele gostinho lá...in loco.
Daí a morte do pipoqueiro.
Pipoca de cinema não tem mais aquele gostinho de coisa feita à mão, imperfeita, trabalhosa, com piruá...
Pipoca de cinema, hoje em dia, tem cheiro de pipoca, cara de pipoca, gosto de pipoca. Mas não é pipoca. É um projeto de marketing.
Exatamente como os filmes: rápidas, bonitas, coloridas, cheias de efeitos. E no fim dão a impressão que faltou alguma coisa.
Talvez o pipoqueiro.

por Luciano Pires

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Nilá


Seu nome era Nilá. Ou pelo menos soava assim, a quem ouvisse sua mãe chamando por ela. O que vivia acontecendo. Nilá sempre ficava para trás nas caminhadas. Distraía-se com uma flor, um pássaro, uma borboleta voando. Quando um animal feroz se aproximava, Nilá era a última a perceber. E a correr. E lá estava a mãe, preocupada como são as mães, a gritar seu nome: Nilá! Nilá, ao contrário dos irmãos, estava invariavelmente pensativa, quieta, preocupada com outras coisas.
Coisas às quais ninguém prestava atenção: o barulho do vento, o som da água correndo, o canto distante de um pássaro noturno. Nas tempestades, quando todos se acotovelavam para proteger-se do frio, lá estava Nilá, no mundo da Lua, olhando para fora da caverna. Por que gostava de ficar longe dos outros quando a chuva caía? O pai não entendia. Nem os irmãos.
Mas a mãe, sensível como são as mães, sabia que Nilá gostava de ouvir o ruído da chuva caindo e batendo nas pedras. Nilá! Gritava a mãe, preocupada com a filha. E a chamava para juntar-se à família para se aquecer e proteger-se da chuva.
Foi numa manhã de sol que Nilá mudou a história do mundo, embora não tivesse consciência disso. Caminhava, como sempre, distante dos outros familiares. Os homens estavam caçando e as mulheres cuidavam das crianças pequenas. Nilá passeava - no futuro inventariam um termo melhor, "flanava" - como sempre fazia nas belas manhãs de sol quando a temperatura era amena e as plantas e os bichos pareciam comemorar e celebrar o fato de estarem vivos.
Nilá viu de longe os restos de um animal morto. Aproximou-se, observou ossos e cartilagens do que fora um abutre. As carnes já haviam sido devoradas por outros animais. Nilá viu um osso fino e oco, de pouco mais de 20 centímetros. Num impulso, Nilá pegou aquele osso. Deixou-o ao sol, para secar. Depois, com o auxílio de algumas pedras usadas pelo pai (que teve de pegar escondida, já que o pai não entenderia o que ela tinha em mente), Nilá fez alguns furinhos no osso. Depois desse dia, a vida de Nilá mudou. Ficou famosa e várias famílias vinham de longe, em algumas noites de céu claro, ouvi-la soprar aquele osso em torno da fogueira. Há 40.000 anos, Nilá inventou a primeira flauta da história e criou a Música.
Sua flauta foi descoberta há poucos dias por arqueólogos na Alemanha.

Tony Belloto

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Harmonia



De repente imperfeita!
De uma imperfeição dorida;
Imperfeição evidente, cruel, precoce, mofa...
Ainda crisálida, na saída do casulo: incompleta.

Já borboleta luta para fortificar seu íntimo, a asa tomou forma crônica...desagradável.
Sozinha, desconsolada, não respeita, não aceita o defeito...
Olha tudo não percebe nada.
Infiltra-se em meio as muitas tribos;
Em vão fantasia-se como todas elas;
A verdade é nua.
Borboleta quando despe-se vê sua forma frágil, torpe...
A única saída: ignorar.
Ignora, a beleza, e a falta dela.
Descobre que existem outras saídas,
esconde a asa débil, e voa de outra maneira: caminha.

Caminha sem rumo, toma novas direções.
Nunca esquece que tem asas, secretamente quer voar...
Passos lentos, olhar perdido, riso frouxo.

Por um momento esquece o que esconde,
e aí percebe que ocultar a asa mingua a possibilidade de voar.
Ao imaginar-se presa ao chão para sempre, revolta-se;
Primeiro sente medo, depois esperança, até encorajar-se fortemente;
Arranca a cápsula na qual se esconde, e liberta-se.
Sabe que não existe uma cura, e voa mesmo empenada, mas voa...
Sente o vento carinhosamente, sente-se livre de si própria, já nada importa...
Não importa a feiura de sua asa, esta orgulhosa de si, agora sabe-se inteligente;
Sente-se interessante o suficiente para olhar outro bater de asas ao flanco;
É um bater de asas infinitamente belo, forte e protetor.
Junta-se a ele.

As asas são as mesmas, o íntimo resistente, o coração pleno...
Tudo esta em harmonia.
Já não esta só.
Deseja voar muito alto...nas asas do amor!

Sara Almeida

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Brisa

Ela hoje não fala, hoje cala,
não ri, não repara, não dança;
Descansa do seu desassossego;
A melancolia não seduz, contagia;
Apaixonou-se por este e por aquele,
agora inala a tristeza imediata;
Inconstante, insatisfeita,
planeia a próxima paixão,
em busca do elo perdido...
Anda absorta, está só,
não compreende, mas sente;
Observo, não falo, me calo,
reparo, ouço...des(espero)...
o regresso da menina que dança,
que canta, e encanta;
Eis que (res)surge, de um sono sedativo,
feito brisa, com seu brilho loiro,
a doçura quotidiana,
que me enche de ternura;
até a próxima fuga para novas aventuras...
Sara Almeida
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